É uma entrevista diferente! Na revista Única do Expresso de Sábado Pilar del Rio entrevista, interroga, questiona José Saramago. É claro que sendo sua companheira poderia ser mais venerativa, mas não! Ela não tem medo de discordar, de o obrigar a justificar muito bem a sua posição. Fala-se de tudo, política, literatura, doença, morte, Nobel. Nem sempre concordo com Saramago, confesso que até hoje só li o Memorial, acho que por vezes a sua maneira de ser deveria ser mais terra a terra, mas ainda assim uma pessoa importante no panorama nacional...
Assim vai o mundo...
terça-feira, outubro 14, 2008
segunda-feira, outubro 13, 2008
O mundo dos jornais...
Churchill visto por José Manuel dos Santos...
Acordava às oito horas, tomava o pequeno-almoço (ovos com presunto, perna de galinha, melão, sumo de laranja, café), fumava o primeiro charuto de uma série diária de oito e permanecia na cama a ler e a ditar mensagens à secretária. Às dez, tomava banho e arranjava-se com esmero. Ia então para o gabinete receber pessoas. Depois de beber um ou dois whisky and soda, almoçava, à uma e meia da tarde, com convidados, ou era ele o convidado (do rei, às terças-feiras). Às três, dormia a sesta. Uma hora depois, acordava, tomava de novo banho e mudava de roupa. Às quatro e meia, prosseguia o despacho, fazia reuniões e continuava a receber até às oito e meia. A essa hora, jantava os seus pratos preferidos, acompanhados de champanhe. Às dez, trabalhava mais um pouco, até que, às onze e meia, via um filme ou jogava uma partida de cartas. À uma da manhã, deitava-se. Antes de adormecer, lia jornais ou livros. Este era o dia-padrão de Churchill, quando era primeiro-ministro, mesmo durante a guerra. Só o mudava se os acontecimentos o obrigassem.
Esta agenda sibarita é-nos descrita, acompanhada de algumas peças que a materializavam, no fascinante labirinto que, em Londres, perto do número 10 de Downing Street, dá pelo nome de Churchill Museum and Cabinet War Rooms. Aqui se conserva o subterrâneo que, sob os bombardeamentos, serviu de quartel-general ao Governo durante a II Guerra Mundial. Das mesas às camas, das loiças às roupas, do telefone directo à Casa Branca ao emissor da BBC para falar à Grã-Bretanha e ao Mundo, dos mapas onde a evolução da guerra era seguida, sinalizada e decidida ao aparelho eléctrico que permitia acender cigarros, do quarto de Churchill ao gabinete de trabalho, da sala do Conselho de Ministros à dos chefes militares - ali se apresenta tudo com um rigor e uma autenticidade que nos fazem regressar a esse tempo vivido sobre o abismo. Ali, ouve-se a voz de Churchill, seguem-se os seus passos, os seus gestos, o fumo do seu charuto e o movimento da sua cólera.
A meio deste circuito mítico, existe agora um Museu Churchill, que usa tecnologias sedutoras. Atravessando aquelas imagens, coisas, legendas e memórias, vai-se dos dias da guerra aos da paz, dos da sua morte (com 90 anos) aos do nascimento, dos da infância (estão lá os cadernos e os soldadinhos de chumbo) aos da carreira. Ali estão o aristocrata, o militar, o jornalista, o democrata, o político, o escritor, o pintor amador, o "dandy", o conservador, o rebelde. Estão os fatos, as fardas, as medalhas, os documentos, os objectos, os livros, as fotografias, os filmes que nos devolvem os acontecimentos e o seu rasto, as vitórias e a sua exaltação, as derrotas e a sua ansiedade. Está o mapa duma vida, mostrando o que nela se passou dia a dia, hora a hora - os trabalhos e os prazeres. Está sobretudo o retrato de uma personalidade única, livre e audaciosa - tão humana nas suas qualidades e defeitos, nos talentos e convicções, nas manias e contradições. E quase sobre-humana na sua coragem feliz e indomável! Este retrato é uma das chaves para percebermos o que aconteceu nesse tempo de tantos perigos vencidos. Churchill, com a sua vontade de liberdade e o seu instinto de vida (que se opunha ao instinto de morte de Hitler), foi o "homem com qualidades", o anti-Ulrich de Musil.
Quando recentemente estive em Londres, fiz esta longa travessia pela vida de um político que percebeu, antes dos outros, o "ser" dos totalitarismos, opondo-se ao "espírito" de rendição da época e assegurando a liberdade ao nosso mundo ameaçado. Este museu prova-nos que os grandes homens são capazes, num momento fatal, de saltar sobre o medo do tempo, vendo o dia para além da noite que cresce.
Pouco depois desta visita, ao ler uma biografia de Marcel Proust, reparei que, em 14 de Agosto de 1918, o escritor, que nesse Verão resolveu não ir de férias para Cabourg, foi jantar sozinho ao Hotel Ritz de Paris, do qual era frequentador assíduo e ostensivo. Numa mesa, junto dele, estava Winston Churchill, que ainda não era quem seria. O olhar minucioso e indagador de Proust cruzou-se com o olhar irónico e determinado de Churchill. Nesse encontro de olhares foi como se o século XX dissesse um dos seus nomes. (in Expresso)
Assim vai o mundo...
Acordava às oito horas, tomava o pequeno-almoço (ovos com presunto, perna de galinha, melão, sumo de laranja, café), fumava o primeiro charuto de uma série diária de oito e permanecia na cama a ler e a ditar mensagens à secretária. Às dez, tomava banho e arranjava-se com esmero. Ia então para o gabinete receber pessoas. Depois de beber um ou dois whisky and soda, almoçava, à uma e meia da tarde, com convidados, ou era ele o convidado (do rei, às terças-feiras). Às três, dormia a sesta. Uma hora depois, acordava, tomava de novo banho e mudava de roupa. Às quatro e meia, prosseguia o despacho, fazia reuniões e continuava a receber até às oito e meia. A essa hora, jantava os seus pratos preferidos, acompanhados de champanhe. Às dez, trabalhava mais um pouco, até que, às onze e meia, via um filme ou jogava uma partida de cartas. À uma da manhã, deitava-se. Antes de adormecer, lia jornais ou livros. Este era o dia-padrão de Churchill, quando era primeiro-ministro, mesmo durante a guerra. Só o mudava se os acontecimentos o obrigassem.
Esta agenda sibarita é-nos descrita, acompanhada de algumas peças que a materializavam, no fascinante labirinto que, em Londres, perto do número 10 de Downing Street, dá pelo nome de Churchill Museum and Cabinet War Rooms. Aqui se conserva o subterrâneo que, sob os bombardeamentos, serviu de quartel-general ao Governo durante a II Guerra Mundial. Das mesas às camas, das loiças às roupas, do telefone directo à Casa Branca ao emissor da BBC para falar à Grã-Bretanha e ao Mundo, dos mapas onde a evolução da guerra era seguida, sinalizada e decidida ao aparelho eléctrico que permitia acender cigarros, do quarto de Churchill ao gabinete de trabalho, da sala do Conselho de Ministros à dos chefes militares - ali se apresenta tudo com um rigor e uma autenticidade que nos fazem regressar a esse tempo vivido sobre o abismo. Ali, ouve-se a voz de Churchill, seguem-se os seus passos, os seus gestos, o fumo do seu charuto e o movimento da sua cólera.
A meio deste circuito mítico, existe agora um Museu Churchill, que usa tecnologias sedutoras. Atravessando aquelas imagens, coisas, legendas e memórias, vai-se dos dias da guerra aos da paz, dos da sua morte (com 90 anos) aos do nascimento, dos da infância (estão lá os cadernos e os soldadinhos de chumbo) aos da carreira. Ali estão o aristocrata, o militar, o jornalista, o democrata, o político, o escritor, o pintor amador, o "dandy", o conservador, o rebelde. Estão os fatos, as fardas, as medalhas, os documentos, os objectos, os livros, as fotografias, os filmes que nos devolvem os acontecimentos e o seu rasto, as vitórias e a sua exaltação, as derrotas e a sua ansiedade. Está o mapa duma vida, mostrando o que nela se passou dia a dia, hora a hora - os trabalhos e os prazeres. Está sobretudo o retrato de uma personalidade única, livre e audaciosa - tão humana nas suas qualidades e defeitos, nos talentos e convicções, nas manias e contradições. E quase sobre-humana na sua coragem feliz e indomável! Este retrato é uma das chaves para percebermos o que aconteceu nesse tempo de tantos perigos vencidos. Churchill, com a sua vontade de liberdade e o seu instinto de vida (que se opunha ao instinto de morte de Hitler), foi o "homem com qualidades", o anti-Ulrich de Musil.
Quando recentemente estive em Londres, fiz esta longa travessia pela vida de um político que percebeu, antes dos outros, o "ser" dos totalitarismos, opondo-se ao "espírito" de rendição da época e assegurando a liberdade ao nosso mundo ameaçado. Este museu prova-nos que os grandes homens são capazes, num momento fatal, de saltar sobre o medo do tempo, vendo o dia para além da noite que cresce.
Pouco depois desta visita, ao ler uma biografia de Marcel Proust, reparei que, em 14 de Agosto de 1918, o escritor, que nesse Verão resolveu não ir de férias para Cabourg, foi jantar sozinho ao Hotel Ritz de Paris, do qual era frequentador assíduo e ostensivo. Numa mesa, junto dele, estava Winston Churchill, que ainda não era quem seria. O olhar minucioso e indagador de Proust cruzou-se com o olhar irónico e determinado de Churchill. Nesse encontro de olhares foi como se o século XX dissesse um dos seus nomes. (in Expresso)
Assim vai o mundo...
Publicada por
Francisco del Mundo
à(s)
6:41 da tarde
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
domingo, outubro 12, 2008
O mundo da música..
O filho de Bob Dylan canta muito bem! Faz lembrar o pai, mas canta melhor...
Assim vai o mundo...
Assim vai o mundo...
Publicada por
Francisco del Mundo
à(s)
3:01 da tarde
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
sexta-feira, outubro 10, 2008
O mundo da blogosfera...
Fantástico este post daqui
A crise do subprime explicada aos pequeninos
O Ti Joaquim tem uma tasca, na Vila Carrapato, e decide que vai vender copos "fiados"aos seus leais fregueses, todos bêbados, quase todos desempregados. Porque decide vender a crédito, ele pode aumentar um pouco o preço da dose do tintol e da branquinha (a diferença é o preço que os pinguços pagam pelo crédito).
O gerente do banco do Ti Joaquim, um ousado administrador formado num curso muito reconhecido, decide que o livrinho das dívidas da tasca constitui, afinal, um activo, e começa a adiantar dinheiro ao estabelecimento, tendo o "fiado" dos fregueses como garantia.
Uns seis “zécutivos” de bancos, mais adiante, pegam no tal “activo”, e transformam-no em CDB, CDO, CCD, UTI, OVNI, SOS ou qualquer outro acrónimo financeiro que ninguém sabe exactamente o que quer dizer.
Esses adicionais instrumentos financeiros alavancam o mercado de capitais e conduzem a operações estruturadas de derivativos, cujo lastro inicial todo mundo desconhece (os tais livrinhos das dívidas do Ti Joaquim).
Esses derivados são negociados como se fossem títulos sérios, com fortes garantias reais, nos mercados de 73 países.
Até que alguém descobre que os bêbados da Vila Carrapato não têm dinheiro para pagar as contas, e a tasca do Ti Joaquim vai à falência. E toda a cadeia ruiu.
Assim vai o mundo...
A crise do subprime explicada aos pequeninos
O Ti Joaquim tem uma tasca, na Vila Carrapato, e decide que vai vender copos "fiados"aos seus leais fregueses, todos bêbados, quase todos desempregados. Porque decide vender a crédito, ele pode aumentar um pouco o preço da dose do tintol e da branquinha (a diferença é o preço que os pinguços pagam pelo crédito).
O gerente do banco do Ti Joaquim, um ousado administrador formado num curso muito reconhecido, decide que o livrinho das dívidas da tasca constitui, afinal, um activo, e começa a adiantar dinheiro ao estabelecimento, tendo o "fiado" dos fregueses como garantia.
Uns seis “zécutivos” de bancos, mais adiante, pegam no tal “activo”, e transformam-no em CDB, CDO, CCD, UTI, OVNI, SOS ou qualquer outro acrónimo financeiro que ninguém sabe exactamente o que quer dizer.
Esses adicionais instrumentos financeiros alavancam o mercado de capitais e conduzem a operações estruturadas de derivativos, cujo lastro inicial todo mundo desconhece (os tais livrinhos das dívidas do Ti Joaquim).
Esses derivados são negociados como se fossem títulos sérios, com fortes garantias reais, nos mercados de 73 países.
Até que alguém descobre que os bêbados da Vila Carrapato não têm dinheiro para pagar as contas, e a tasca do Ti Joaquim vai à falência. E toda a cadeia ruiu.
Assim vai o mundo...
Publicada por
Francisco del Mundo
à(s)
1:40 da tarde
2 comentários:
Hiperligações para esta mensagem
quinta-feira, outubro 09, 2008
quarta-feira, outubro 08, 2008
O mundo americano...
Hoje de madrugada mais um debate entre os candidatos à presidência norte-americano. Acompanhei a SIC Noticias antes e depois do debate porque o Pedro Mourinho, Martim Cabral e Luis Costa Ribas oferecem-nos boas explicações sobre as posições e posturas dos candidatos. Mas o debate segui-o na CNN porque acho terrível a tradução simultanea da SIC Noticias. Quanto ao debate ganhou Obama, e cada vez mais me parece que McCain não vai conseguir mudar a maré democrata...
Assim vai o mundo...
Assim vai o mundo...
Publicada por
Francisco del Mundo
à(s)
12:25 da tarde
2 comentários:
Hiperligações para esta mensagem
terça-feira, outubro 07, 2008
O mundo do cinema..
Ontem vi pela primeira vez o delirio shakespereano de Baz Luhrmann, que é como quem diz Romeu e Julieta. Uma loucura visual a que se junta uma bela banda sonora...
Assim vai o mundo...
Assim vai o mundo...
Publicada por
Francisco del Mundo
à(s)
5:08 da tarde
2 comentários:
Hiperligações para esta mensagem
segunda-feira, outubro 06, 2008
O mundo do cinema...
Paul Newman visto por José Manuel dos Santos...
Os grandes actores de cinema vivem um eterno retorno, sabendo que cada imagem sua regressará um dia: o presente é-lhes sempre futuro e o futuro, passado. Foi para tentar quebrar esse círculo fatal, esta condenação a ser o que se foi, que, uma vez, Paul Newman publicou um anúncio num jornal a pedir ao público para não ver o primeiro filme em que entrou The Silver Chalice, que passava na televisão vinte anos depois de Victor Saville o ter realizado. Ele próprio não o via: envergonhava-se de o ter feito e pedia desculpa por isso. Esse gesto mostra bem o inferno do actor que fica preso a uma imagem como a um fogo que o devora eternamente. Para o actor, cada papel transforma-se na pedra que carrega repetidamente até ao cimo da montanha.
Newman tinha uma cintilação física que cegava quem o via para o que não fosse ele. A luz azul do olhar num rosto esculpido por um Fídias genético e a perfeição do corpo poderiam tê-lo tornado prisioneiro da sua beleza: um boneco animado que passaria a vida a fazer papéis de gladiador romano. Ele pressentiu o perigo ("um corpo sem nome") e preveniu-o, exigindo de si que o trabalho do actor levasse sempre a melhor sobre o resto. Costumava dizer que não tinha uma arte intuitiva, e era verdade. Tudo nele era resultado de um esforço, de uma técnica, de uma composição, de uma construção. Mas tudo feito com uma sabedoria que escondia os andaimes e mostrava o edifício.
Além disso, para que o risco fosse mínimo e a prevenção total, escolheu personagens que lhe usassem a imagem física, mas que a pusessem em causa, a ameaçassem e, no limite, quase a destruíssem. Para atingir esse alvo com precisão, Tennessee Williams serviu-lhe bem. Aqueles homens belos e atormentados, tumultuosos e fracassados, viris e ambíguos que vivem contra eles próprios e contra o mundo foram-lhe um terreno onde ele ergueu o seu esplendor acossado. Começando por ser o que apanhava os restos de James Dean, tornou-se amigo de Marlon Brando, que lhe foi sombra e desafio.
Depois de, durante a infância, ter visto alegremente as fitas que então os miúdos viam, o meu primeiro filme de "adulto" tinha o nome de Paul Newman a abrir o genérico. Chama-se Do Alto do Terraço (From the Terrace) e vi-o no Tivoli. Estava classificado para maiores de 12 anos, mas eu teria apenas 10. Fiquei deslumbrado e, nessa noite, as imagens, as luzes, os sons não me deixaram dormir. Passada em Wall Street, a história parecia destes tempos de crise ("esta selva é pior do que a dos gangsters") e levou-me a outros mundos, outras vozes. Ele contracenava com a mulher, Joanne Woodward, num papel em que fazia de empresário aeronáutico. Tudo no filme era bonito: os actores, as roupas, os ambientes, os "décors", as paisagens. E tudo no filme era feio: os golpes, as traições, as trapaças, as vilanias, as fraudes. Quando no ecrã apareceu "The End", eu era outro. Nunca mais revi esse filme, que passou a fazer parte da minha mitologia privada. Várias vezes o procurei encontrar em DVD, sem conseguir. Sei hoje que o filme não é uma obra-prima, embora então me tivesse parecido. Por isso, com a memória que dele conservo, talvez seja melhor, afinal, não me reencontrar com ele. Mas também sei que, se puder, não resistirei a isso...
Mais tarde, fui vendo muitos outros filmes em que entrou, alguns inesquecíveis. Fascinou-me sempre o modo astuto como soube envelhecer ("ninguém continua jovem") e a escolha de papéis em cada idade. E por detrás do actor que se fez contra a facilidade da sua beleza e do realizador que resolveu arriscar havia o homem com convicções e com humor, o cidadão com consciência política, o cozinheiro, o piloto de automóveis.
A morte de Newman, neste momento vital para os Estados Unidos e para o mundo, deixa-nos mais entregues aos seus filmes, às suas imagens, às suas memórias. Tudo o que é dele diz-nos que depende de nós não estarmos num mundo em que todos digamos a todos as palavras que Maggie (Elizabeth Taylor) atira a Brick (Paul Newman) em Gata em Telhado de Zinco Quente: "Nós já não vivemos juntos. Dividimos apenas a mesma gaiola." (in Expresso)
Assim vai o mundo...
Os grandes actores de cinema vivem um eterno retorno, sabendo que cada imagem sua regressará um dia: o presente é-lhes sempre futuro e o futuro, passado. Foi para tentar quebrar esse círculo fatal, esta condenação a ser o que se foi, que, uma vez, Paul Newman publicou um anúncio num jornal a pedir ao público para não ver o primeiro filme em que entrou The Silver Chalice, que passava na televisão vinte anos depois de Victor Saville o ter realizado. Ele próprio não o via: envergonhava-se de o ter feito e pedia desculpa por isso. Esse gesto mostra bem o inferno do actor que fica preso a uma imagem como a um fogo que o devora eternamente. Para o actor, cada papel transforma-se na pedra que carrega repetidamente até ao cimo da montanha.
Newman tinha uma cintilação física que cegava quem o via para o que não fosse ele. A luz azul do olhar num rosto esculpido por um Fídias genético e a perfeição do corpo poderiam tê-lo tornado prisioneiro da sua beleza: um boneco animado que passaria a vida a fazer papéis de gladiador romano. Ele pressentiu o perigo ("um corpo sem nome") e preveniu-o, exigindo de si que o trabalho do actor levasse sempre a melhor sobre o resto. Costumava dizer que não tinha uma arte intuitiva, e era verdade. Tudo nele era resultado de um esforço, de uma técnica, de uma composição, de uma construção. Mas tudo feito com uma sabedoria que escondia os andaimes e mostrava o edifício.
Além disso, para que o risco fosse mínimo e a prevenção total, escolheu personagens que lhe usassem a imagem física, mas que a pusessem em causa, a ameaçassem e, no limite, quase a destruíssem. Para atingir esse alvo com precisão, Tennessee Williams serviu-lhe bem. Aqueles homens belos e atormentados, tumultuosos e fracassados, viris e ambíguos que vivem contra eles próprios e contra o mundo foram-lhe um terreno onde ele ergueu o seu esplendor acossado. Começando por ser o que apanhava os restos de James Dean, tornou-se amigo de Marlon Brando, que lhe foi sombra e desafio.
Depois de, durante a infância, ter visto alegremente as fitas que então os miúdos viam, o meu primeiro filme de "adulto" tinha o nome de Paul Newman a abrir o genérico. Chama-se Do Alto do Terraço (From the Terrace) e vi-o no Tivoli. Estava classificado para maiores de 12 anos, mas eu teria apenas 10. Fiquei deslumbrado e, nessa noite, as imagens, as luzes, os sons não me deixaram dormir. Passada em Wall Street, a história parecia destes tempos de crise ("esta selva é pior do que a dos gangsters") e levou-me a outros mundos, outras vozes. Ele contracenava com a mulher, Joanne Woodward, num papel em que fazia de empresário aeronáutico. Tudo no filme era bonito: os actores, as roupas, os ambientes, os "décors", as paisagens. E tudo no filme era feio: os golpes, as traições, as trapaças, as vilanias, as fraudes. Quando no ecrã apareceu "The End", eu era outro. Nunca mais revi esse filme, que passou a fazer parte da minha mitologia privada. Várias vezes o procurei encontrar em DVD, sem conseguir. Sei hoje que o filme não é uma obra-prima, embora então me tivesse parecido. Por isso, com a memória que dele conservo, talvez seja melhor, afinal, não me reencontrar com ele. Mas também sei que, se puder, não resistirei a isso...
Mais tarde, fui vendo muitos outros filmes em que entrou, alguns inesquecíveis. Fascinou-me sempre o modo astuto como soube envelhecer ("ninguém continua jovem") e a escolha de papéis em cada idade. E por detrás do actor que se fez contra a facilidade da sua beleza e do realizador que resolveu arriscar havia o homem com convicções e com humor, o cidadão com consciência política, o cozinheiro, o piloto de automóveis.
A morte de Newman, neste momento vital para os Estados Unidos e para o mundo, deixa-nos mais entregues aos seus filmes, às suas imagens, às suas memórias. Tudo o que é dele diz-nos que depende de nós não estarmos num mundo em que todos digamos a todos as palavras que Maggie (Elizabeth Taylor) atira a Brick (Paul Newman) em Gata em Telhado de Zinco Quente: "Nós já não vivemos juntos. Dividimos apenas a mesma gaiola." (in Expresso)
Assim vai o mundo...
Publicada por
Francisco del Mundo
à(s)
2:22 da tarde
2 comentários:
Hiperligações para esta mensagem
O mundo da TV...
Estreou ontem o novo programa "Zé Carlos" dos Gato Fedorento. Achei pouco, achei que estão a começar a acomodar-se e perder a irreverência. Acho que "Os Contemporâneos" estão com mais humor e acutilância. Mas quem ganha somos nós nesta disputa de humor...
Assim vai o mundo...
Assim vai o mundo...
Publicada por
Francisco del Mundo
à(s)
2:12 da tarde
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
domingo, outubro 05, 2008
O mundo dos jornais...
Maravilhosa a entrevista de Carlos do Carmo à revista Tabu de ontem. A serenidade e inteligência de um dos maiores fadistas portugueses...
Assim vai o mundo...
Assim vai o mundo...
Publicada por
Francisco del Mundo
à(s)
10:10 da tarde
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
O mundo das letras...
Soube hoje que sexta morreu Dinis Machado! Nunca li mas já tinha prometido a mim mesmo ler o "O que diz Molero! Fará falta como fazem todos os vultos da Lingua Portuguesa...
Assim vai o mundo...
Assim vai o mundo...
Publicada por
Francisco del Mundo
à(s)
10:05 da tarde
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
sexta-feira, outubro 03, 2008
O mundo dos livros...
Li ontem o primeiro capítulo do livro "O Pendulo de Foucault" de Umberto Eco e digo-vos que foi muito complicado. Mas aguentei... Vamos lá ver que tal é o resto...
Assim vai o mundo...
Assim vai o mundo...
Publicada por
Francisco del Mundo
à(s)
6:08 da tarde
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
quinta-feira, outubro 02, 2008
O mundo da TV...
Que saudade de ter o Today Show na Sic Radical... Jon Stewart até às eleições americanas... Óptimo...
Assim vai o mundo...
Assim vai o mundo...
Publicada por
Francisco del Mundo
à(s)
12:28 da manhã
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
quarta-feira, outubro 01, 2008
O mundo da bola...
Já não me lembrava de me irritar com um jogo, mas ontem foi demais... Estou como o meu caríssimo homónimo...
Sim, eu posso ter maus fígados mas, aos 73 minutos, quando aquele mexicano do Arsenal entrou pela área do FC Porto aos toques, eu desatei a rir – só parei quando vi, pela televisão, que Arsène Wenger tinha feito o mesmo e pelas mesmas razões. Estava irritado pela chamada de Lucho, fragilizado e sem ritmo, incluído numa equipa trôpega, sem alma, sem laterais (ia escrever «sem defesa e sem ideias para o ataque» mas pareceu-me muita coisa junta) – só por maldade ou por distracção se poderia exigir o talento de Lucho para organizar uma banda desafinada e sem capacidade de fazer marcações, sem falar do buço do Tomás Costa (um magricela que até não esteve mal na ala direita mas, para todos os efeitos, um jogador que cumpre mandar recolher a um sanatório para engorda e musculação), do desequilíbrio daquele rapaz que veio do Benfica (substituído inutilmente pelo Candeias, que não tem culpa) ou da inutilidade de Benítez (sempre batido por Walcott, que também bateu Bruno Alves limpinho). Quanto a Helton, eu proibía-o de jogar de calças; basta lembrar Krajl, outro guarda-redes de calças compridas – completamente disfuncional – que passou pelo FC Porto como capataz de aviário. E quanto aos semi-golos de Lisandro e de Rodríguez, é justo dizer que não passaram de bolas que não entraram. Quanto a Jesualdo Ferreira, o projectista, não percebo. As coisas são como são. (Francisco José Viegas)
Assim vai o mundo...
Sim, eu posso ter maus fígados mas, aos 73 minutos, quando aquele mexicano do Arsenal entrou pela área do FC Porto aos toques, eu desatei a rir – só parei quando vi, pela televisão, que Arsène Wenger tinha feito o mesmo e pelas mesmas razões. Estava irritado pela chamada de Lucho, fragilizado e sem ritmo, incluído numa equipa trôpega, sem alma, sem laterais (ia escrever «sem defesa e sem ideias para o ataque» mas pareceu-me muita coisa junta) – só por maldade ou por distracção se poderia exigir o talento de Lucho para organizar uma banda desafinada e sem capacidade de fazer marcações, sem falar do buço do Tomás Costa (um magricela que até não esteve mal na ala direita mas, para todos os efeitos, um jogador que cumpre mandar recolher a um sanatório para engorda e musculação), do desequilíbrio daquele rapaz que veio do Benfica (substituído inutilmente pelo Candeias, que não tem culpa) ou da inutilidade de Benítez (sempre batido por Walcott, que também bateu Bruno Alves limpinho). Quanto a Helton, eu proibía-o de jogar de calças; basta lembrar Krajl, outro guarda-redes de calças compridas – completamente disfuncional – que passou pelo FC Porto como capataz de aviário. E quanto aos semi-golos de Lisandro e de Rodríguez, é justo dizer que não passaram de bolas que não entraram. Quanto a Jesualdo Ferreira, o projectista, não percebo. As coisas são como são. (Francisco José Viegas)
Assim vai o mundo...
Publicada por
Francisco del Mundo
à(s)
10:56 da tarde
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
terça-feira, setembro 30, 2008
O mundo da música...
A minha música favorita dos Beatles! A beleza da letra e simplicidade da melodia fazem desta música uma peça eterna...
Blackbird
Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise
Black bird singing in the dead of night
Take these sunken eyes and learn to see
all your life
you were only waiting for this moment to be free
Blackbird fly, Blackbird fly
Into the light of the dark black night.
Blackbird fly, Blackbird fly
Into the light of the dark black night.
Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise,oh
You were only waiting for this moment to arise, oh
You were only waiting for this moment to arise
Assim vai o mundo...
Blackbird
Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise
Black bird singing in the dead of night
Take these sunken eyes and learn to see
all your life
you were only waiting for this moment to be free
Blackbird fly, Blackbird fly
Into the light of the dark black night.
Blackbird fly, Blackbird fly
Into the light of the dark black night.
Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise,oh
You were only waiting for this moment to arise, oh
You were only waiting for this moment to arise
Assim vai o mundo...
Publicada por
Francisco del Mundo
à(s)
8:50 da tarde
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
segunda-feira, setembro 29, 2008
O mundo americano...
Excelente artigo de Miguel Sousa Tavares no Expresso sobre os EUA. Acho que esta é a última oportunidade dada pelo mundo aos americanos de escolherem alguém do seu agrado.
Europa e o problema americano
O presidente da Comissão Europeia, o 'nosso' Durão Barroso, descobriu agora os malefícios do "unilateralismo" americano no mundo de hoje. Arrependido, "ex officio", dos tempos do seu americanismo militante, quando se curvava em mesuras perante o "George" na cimeira das Lages, jurando a pés juntos que o seu "amigo George" era incapaz de mentir e que ia atacar o Iraque porque tinha provas das armas de destruição maciça de Saddam Hussein - que ele, Barroso, havia visto com os seus olhos - o comissário-chefe dessa coisa difusa a que insistimos em chamar Europa resolveu agora escrever um "dazibao" aos dois candidatos à próxima presidência dos Estados Unidos, dando-lhe conta dos sentimentos actuais de um europeu. A Europa, diz Durão Barroso, quer que o próximo Presidente americano perceba que não pode passar sem ela; que se renda ao "multilateralismo", deixando de se comportar como o único actor global; que aceite a reforma das instituições que a Administração Bush tratou de tornar obsoletas e inúteis, como a ONU, o FMI, o Banco Mundial; que aceite a presença de outros "players" emergentes na cena mundial, com direito a audição e participação nas decisões, que reconheça que há problemas sérios à escala planetária que não podem continuar dependentes da agenda doméstica de um Presidente dos Estados Unidos. Tudo coisas óbvias e consensuais e que agora são fáceis de dizer. Há uma década, a ex-secretária de Estado americana Madeleine Albright, classificava os Estados Unidos como "a nação indispensável". Oito anos de desastrada gestão de Bush encarregaram-se de nos ensinar amargamente que as coisas podiam mudar: os Estados Unidos tornaram-se hoje a nação dispensável - de bom grado dispensaríamos a contribuição que deram para o estado do mundo, nestes últimos tempos. Em oito anos, a nação que a dupla Clinton-Gore havia deixado na prosperidade e no caminho de uma efectiva e inteligente liderança mundial transformou-se num dos problemas do mundo, ao lado da Al-Qaeda e do fundamentalismo islâmico ou do aquecimento global. Os Estados Unidos que George W. Bush vai deixar em herança são o maior consumidor de energia e matérias-primas à escala global; o maior poluidor do planeta e o mais feroz adversário de todas as convenções e tentativas de inverter o caminho para o caos - tendo a Casa Branca chegado ao extremo de falsificar relatórios científicos para tentar provar que o aquecimento global não existia; são o principal factor de provocação do terrorismo islâmico e o maior destabilizador da paz no Médio Oriente, nos Balcãs, no Cáucaso; são o mais hipócrita defensor de um comércio global livre e justo, que defendem no papel e tratam de sabotar na prática, sempre que lhes dá jeito; e são, conforme se tornou agora exuberantemente exposto, o grande agente e exportador da crise económica mundial, graças à ganância dos amigos de Bush e à cumplicidade cooperante deste. Eis a herança do 'amigo George'. Não admira que até Durão Barroso seja agora capaz de negar três vezes que o conhece. E, todavia, só se deixou enganar quem quis. Os americanos, claro, e é por isso que a América é uma nação perigosa, porque tanto se podem entregar a um Roosevelt ou a um Clinton como a um Nixon ou a um Bush. Mas não só os americanos: também essa geração de dirigentes europeus enfatuados, que parecem desprovidos de pensamento próprio, mesmo quando se trata de questões que tocam muito mais de perto à Europa do que à América, como são os Balcãs, o Médio Oriente ou as relações com a Rússia. Toda a gente sabia que Bush era um completo ignorante em matéria de política externa, dotado daquela ignorância arrogante que se encontra no americano médio, que está convencido de que, fora dos Estados Unidos, nada mais conta e nada mais interessa, e que o mundo inteiro vive no desejo de poder imitar o estilo de vida e os 'valores' americanos - os únicos justos e conformes à vontade de Deus. Mas a ignorância é uma arma perigosa nas mãos de um homem poderoso, e dizem que o Presidente dos Estados Unidos é o homem mais poderoso do mundo. Foi a ignorância de Bush que conduziu os Estados Unidos ao caos e fez do mundo um lugar infinitamente mais perigoso. Tudo era por demais evidente que assim seria, mas a "intelligentsia" europeia que ditou moda nos últimos tempos havia decretado, qual "fatwa", que duvidar da infalibilidade americana era crime de "antiamericanismo primário" - uma doença mental de diletantes ou "órfãos do comunismo". Corremos o risco de ter mais do mesmo. A semana passada, durante uma entrevista à televisão espanhola, ficou a perceber-se que o candidato McCain - tido como um "especialista" em política externa - não sabia que Rodriguez Zapatero é primeiro-ministro de Espanha, o que equivale a dizer que não acha que a Espanha seja uma nação suficientemente importante para interessar um Presidente dos Estados Unidos. E a candidata a vice-presidente, a dona-de-casa do Alasca, Sarah Palin - que até ao ano passado nunca tinha pedido um passaporte para sair dos EUA - só terça-feira passada se encontrou pela primeira vez com um dirigente estrangeiro. Puseram-na nas mãos do 'guru' Kissinger para um "brain-storming" intensivo e trataram de introduzi-la à pressa ao resto do mundo, começando pelos amigos: os Presidentes da Geórgia, Ucrânia, Iraque e Afeganistão. Graças a uma indiscrição da CNN, cujo repórter se conseguiu aproximar da senhora mais do que os seguranças consentem, ficou a saber-se que, na quarta-feira, Kissinger tratava de lhe explicar quem era Sarkozy. A coisa promete... O que está errado na carta de Durão Barroso aos candidates às eleições americanas é o tom de pedido: a Europa pede aos Estados Unidos que a levem em conta. Dir-se-ia que a factura de Omaha Beach nunca mais está saldada... Mas venha Obama ou McCain, não há mais tempo a perder nem mais desculpas para que a direcção política europeia continue eternamente a resguardar-se nos interesses da 'Aliança Atlântica' para não assumir as suas responsabilidades. A Europa tem de ter uma política externa e uma política de defesa autónomas, que não dependam da NATO nem da ignorância geopolítica dos presidentes americanos. Tem de ter uma estratégia própria para as crises dentro das suas fronteiras e no seu perímetro. Uma estratégia própria para os Balcãs, para o Médio Oriente, para o Magrebe, para o Irão. E, claro, para a Rússia, que é um dos seus principais fornecedores de gás e petróleo e um parceiro indispensável para a manutenção da paz e para a resolução de crises regionais onde os interesses estratégicos americanos só atrapalham. A Europa não tem qualquer interesse em ver mísseis americanos a cercar a Rússia, nem em envolver-se, à sombra da NATO, em intervenções sem sentido e que, em última análise, apenas podem ressuscitar o espírito de guerra-fria sepultado em Berlim há quase vinte anos. Desgraçadamente, toda a gente parece concordar num ponto: não é com esta geração de políticos europeus que a Europa se conseguirá afirmar e construir. Precisamos de estadistas, de visionários, e só temos malabaristas da política e mestres da conjuntura e do vazio. Uma geração muda-se de cima para baixo, começando por mudar as opiniões públicas. É isso que se torna urgente fazer.
Assim vai o mundo...
Europa e o problema americano
O presidente da Comissão Europeia, o 'nosso' Durão Barroso, descobriu agora os malefícios do "unilateralismo" americano no mundo de hoje. Arrependido, "ex officio", dos tempos do seu americanismo militante, quando se curvava em mesuras perante o "George" na cimeira das Lages, jurando a pés juntos que o seu "amigo George" era incapaz de mentir e que ia atacar o Iraque porque tinha provas das armas de destruição maciça de Saddam Hussein - que ele, Barroso, havia visto com os seus olhos - o comissário-chefe dessa coisa difusa a que insistimos em chamar Europa resolveu agora escrever um "dazibao" aos dois candidatos à próxima presidência dos Estados Unidos, dando-lhe conta dos sentimentos actuais de um europeu. A Europa, diz Durão Barroso, quer que o próximo Presidente americano perceba que não pode passar sem ela; que se renda ao "multilateralismo", deixando de se comportar como o único actor global; que aceite a reforma das instituições que a Administração Bush tratou de tornar obsoletas e inúteis, como a ONU, o FMI, o Banco Mundial; que aceite a presença de outros "players" emergentes na cena mundial, com direito a audição e participação nas decisões, que reconheça que há problemas sérios à escala planetária que não podem continuar dependentes da agenda doméstica de um Presidente dos Estados Unidos. Tudo coisas óbvias e consensuais e que agora são fáceis de dizer. Há uma década, a ex-secretária de Estado americana Madeleine Albright, classificava os Estados Unidos como "a nação indispensável". Oito anos de desastrada gestão de Bush encarregaram-se de nos ensinar amargamente que as coisas podiam mudar: os Estados Unidos tornaram-se hoje a nação dispensável - de bom grado dispensaríamos a contribuição que deram para o estado do mundo, nestes últimos tempos. Em oito anos, a nação que a dupla Clinton-Gore havia deixado na prosperidade e no caminho de uma efectiva e inteligente liderança mundial transformou-se num dos problemas do mundo, ao lado da Al-Qaeda e do fundamentalismo islâmico ou do aquecimento global. Os Estados Unidos que George W. Bush vai deixar em herança são o maior consumidor de energia e matérias-primas à escala global; o maior poluidor do planeta e o mais feroz adversário de todas as convenções e tentativas de inverter o caminho para o caos - tendo a Casa Branca chegado ao extremo de falsificar relatórios científicos para tentar provar que o aquecimento global não existia; são o principal factor de provocação do terrorismo islâmico e o maior destabilizador da paz no Médio Oriente, nos Balcãs, no Cáucaso; são o mais hipócrita defensor de um comércio global livre e justo, que defendem no papel e tratam de sabotar na prática, sempre que lhes dá jeito; e são, conforme se tornou agora exuberantemente exposto, o grande agente e exportador da crise económica mundial, graças à ganância dos amigos de Bush e à cumplicidade cooperante deste. Eis a herança do 'amigo George'. Não admira que até Durão Barroso seja agora capaz de negar três vezes que o conhece. E, todavia, só se deixou enganar quem quis. Os americanos, claro, e é por isso que a América é uma nação perigosa, porque tanto se podem entregar a um Roosevelt ou a um Clinton como a um Nixon ou a um Bush. Mas não só os americanos: também essa geração de dirigentes europeus enfatuados, que parecem desprovidos de pensamento próprio, mesmo quando se trata de questões que tocam muito mais de perto à Europa do que à América, como são os Balcãs, o Médio Oriente ou as relações com a Rússia. Toda a gente sabia que Bush era um completo ignorante em matéria de política externa, dotado daquela ignorância arrogante que se encontra no americano médio, que está convencido de que, fora dos Estados Unidos, nada mais conta e nada mais interessa, e que o mundo inteiro vive no desejo de poder imitar o estilo de vida e os 'valores' americanos - os únicos justos e conformes à vontade de Deus. Mas a ignorância é uma arma perigosa nas mãos de um homem poderoso, e dizem que o Presidente dos Estados Unidos é o homem mais poderoso do mundo. Foi a ignorância de Bush que conduziu os Estados Unidos ao caos e fez do mundo um lugar infinitamente mais perigoso. Tudo era por demais evidente que assim seria, mas a "intelligentsia" europeia que ditou moda nos últimos tempos havia decretado, qual "fatwa", que duvidar da infalibilidade americana era crime de "antiamericanismo primário" - uma doença mental de diletantes ou "órfãos do comunismo". Corremos o risco de ter mais do mesmo. A semana passada, durante uma entrevista à televisão espanhola, ficou a perceber-se que o candidato McCain - tido como um "especialista" em política externa - não sabia que Rodriguez Zapatero é primeiro-ministro de Espanha, o que equivale a dizer que não acha que a Espanha seja uma nação suficientemente importante para interessar um Presidente dos Estados Unidos. E a candidata a vice-presidente, a dona-de-casa do Alasca, Sarah Palin - que até ao ano passado nunca tinha pedido um passaporte para sair dos EUA - só terça-feira passada se encontrou pela primeira vez com um dirigente estrangeiro. Puseram-na nas mãos do 'guru' Kissinger para um "brain-storming" intensivo e trataram de introduzi-la à pressa ao resto do mundo, começando pelos amigos: os Presidentes da Geórgia, Ucrânia, Iraque e Afeganistão. Graças a uma indiscrição da CNN, cujo repórter se conseguiu aproximar da senhora mais do que os seguranças consentem, ficou a saber-se que, na quarta-feira, Kissinger tratava de lhe explicar quem era Sarkozy. A coisa promete... O que está errado na carta de Durão Barroso aos candidates às eleições americanas é o tom de pedido: a Europa pede aos Estados Unidos que a levem em conta. Dir-se-ia que a factura de Omaha Beach nunca mais está saldada... Mas venha Obama ou McCain, não há mais tempo a perder nem mais desculpas para que a direcção política europeia continue eternamente a resguardar-se nos interesses da 'Aliança Atlântica' para não assumir as suas responsabilidades. A Europa tem de ter uma política externa e uma política de defesa autónomas, que não dependam da NATO nem da ignorância geopolítica dos presidentes americanos. Tem de ter uma estratégia própria para as crises dentro das suas fronteiras e no seu perímetro. Uma estratégia própria para os Balcãs, para o Médio Oriente, para o Magrebe, para o Irão. E, claro, para a Rússia, que é um dos seus principais fornecedores de gás e petróleo e um parceiro indispensável para a manutenção da paz e para a resolução de crises regionais onde os interesses estratégicos americanos só atrapalham. A Europa não tem qualquer interesse em ver mísseis americanos a cercar a Rússia, nem em envolver-se, à sombra da NATO, em intervenções sem sentido e que, em última análise, apenas podem ressuscitar o espírito de guerra-fria sepultado em Berlim há quase vinte anos. Desgraçadamente, toda a gente parece concordar num ponto: não é com esta geração de políticos europeus que a Europa se conseguirá afirmar e construir. Precisamos de estadistas, de visionários, e só temos malabaristas da política e mestres da conjuntura e do vazio. Uma geração muda-se de cima para baixo, começando por mudar as opiniões públicas. É isso que se torna urgente fazer.
Assim vai o mundo...
Publicada por
Francisco del Mundo
à(s)
1:39 da tarde
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
sábado, setembro 27, 2008
O mundo do cinema...

Soube agora que morreu Paul Newman! A perda dos mais carismáticos olhos azuis do cinema americano...
Assim vai o mundo...
Publicada por
Francisco del Mundo
à(s)
6:15 da tarde
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
O mundo das revistas...
Fantástica a entrevista a Eduardo Lourenço na Ler deste mês.. É de facto alguém com uma visão muito à frente do seu tempo!
Assim vai o mundo...
Assim vai o mundo...
Publicada por
Francisco del Mundo
à(s)
6:08 da tarde
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
O mundo americano...
Ontem no primeiro debate presidencial houve um empate técnico e um moderador miserável... Espera-se que comece a animar nos próximos debates...
Assim vai o mundo...
Assim vai o mundo...
Publicada por
Francisco del Mundo
à(s)
6:07 da tarde
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
sexta-feira, setembro 26, 2008
O mundo dos filmes...
Esta semana de doença permitiu-me ver uns filmes...
Culpa Humana
Um elenco magnífico com Anthony Hopkins e Nicole Kidman à cabeça! Um belo filme com um argumento interessante sobre raça e escolhas de vida.
Relatório Kinsey
A história do estudo feito por Alfred Kinsey que alterou a forma como os norte-americanos viam o sexo.
Wanted
Um filme engraçado com tiros e a Angelina Jolie. A melhor parte é sem dúvida a banda sonora. Potente, estimula o sistema nervoso.
Assim vai o mundo...
Culpa Humana
Um elenco magnífico com Anthony Hopkins e Nicole Kidman à cabeça! Um belo filme com um argumento interessante sobre raça e escolhas de vida.
Relatório Kinsey
A história do estudo feito por Alfred Kinsey que alterou a forma como os norte-americanos viam o sexo.
Wanted
Um filme engraçado com tiros e a Angelina Jolie. A melhor parte é sem dúvida a banda sonora. Potente, estimula o sistema nervoso.
Assim vai o mundo...
Publicada por
Francisco del Mundo
à(s)
2:19 da tarde
2 comentários:
Hiperligações para esta mensagem
Subscrever:
Mensagens (Atom)