Na mesma semana, o cancro levou Badaró, Milú e Michael Crichton! O mundo anda a ficar mais pobre...
Assim vai o mundo...
quarta-feira, novembro 12, 2008
O mundo das crónicas...
O Amanhã visto por José Manuel dos Santos!
Sabemos menos do tempo do que o tempo sabe de nós. Mas o menos que dele sabemos já chega para sabermos que os próximos dias, os próximos meses, os próximos anos vão ser o tempo de uma grande insónia cercada pela noite que cresce. Hora a hora, minuto a minuto, surgem, por todo o lado, os indícios de uma desgraça que avança e cintilam os sinais de um pânico que corre. Não são apenas as bolsas que caem, nem o desemprego que aumenta, nem as dívidas que crescem, nem os bancos que se afundam. É, antes disso e depois disso, a imagem fúnebre de um sistema financeiro que se devora a si próprio, devorando-nos e devorando a esperança, sem a qual a vida é empurrada para a morte.
Nesta "epopeia americana" que terminou em tragédia mundial, George W. Bush quis ser Aquiles, mas acabou num Édipo de Guantánamo que não conseguiu vencer a esfinge chamada Bin Laden (mas Gore Vidal diz: "Não precisamos de Freud, quando se trata de Calígula"); Dick Cheney é um Creonte de petrolífera; Alan Greenspan, uma Medeia de Wall Street; John McCain, um Pátroclo tardio; Sarah Palin, uma Clitmnestra de casino (ou será Hécuba?). E Barack Obama é o Ulisses de uma Ítaca em chamas, com o mundo transformado na Penélope que o esperava. E por todo o lado ouve-se o grito de Antígona a clamar pela justiça que desobedeça à injustiça que manda.
Aqueles que durante anos aplaudiram, de Washington a Bagdade, a representação da peça, participaram no elenco, escolheram o teatro, serviram de ponto, desenharam o cenário, fizeram os figurinos, teceram o enredo, são agora os mesmos que se fingem surpreendidos com o desfecho: um desastre que começou a revelar-se na sua enormidade e que eles olham como se estivessem a ver o mundo ao contrário. Por isso, andam cada vez mais de cabeça para baixo para tentar vê-lo direito. Num tempo tão despossuído de si mesmo, é natural que já nem haja consciência da tragédia que por todo o lado nos envolve como o ar que respiramos. E essa inconsciência, essa ignorância, essa irresponsabilidade são o mais trágico do trágico.
O tempo sabe mais de nós do que nós sabemos do tempo. E o que ele sabe de nós diz-nos que os próximos anos vão ser terríveis: de incerteza, de insegurança, de perigo, de medo, de ansiedade. Aqueles que, ainda há pouco, se vestiam de um optimismo triunfante e calculista cobrem-se agora de um pessimismo cobarde e assustado. Sabemos que, como é costume, quem vai sofrer mais são os mais inocentes, aqueles que têm menos culpas. Sabemos que os autores do desastre são os que estão a recato dele e dos seus horrores, sem consciência, sem vergonha, sem compaixão - e com dinheiro inesgotável. Sabemos que a vida será um alfabeto de dor, com o qual escreveremos o texto da mudança. Sabemos que voltaremos a passar por essa "confusão cruel e inútil" de que um dia falava George Steiner falando da História. Quando esteve em Lisboa, da última vez, o autor de Errata disse, sobre o que se estava a passar, palavras de que ninguém quis ouvir nem o som, nem o sentido. Ele afirmou: "Espanta-me que os pobres não se revoltem." E acrescentou que estranhava, quando todas as manhãs abria o jornal, não ver lá escrito que "tinham assassinado um daqueles empresários que encerram fábricas e depois se metem nos seus jactos privados para ir passar férias a Barbados". Steiner ecoa neste seu comentário violento o antigo clamor dos profetas judeus do Antigo Testamento, que faziam da cólera uma ameaça e só depois um presságio.
Hoje, o vento mudou e tudo muda com ele. Lemos os jornais de todo o mundo e percebemos que cada jornalista passou a ser, mesmo sem o saber ou sem o querer, um São João que, nos seus vaticínios, promete um Apocalipse que não surgirá, como o outro, no fim dos tempos: este é iminente, instantâneo, vertiginoso. Virá amanhã, logo à tarde, agora mesmo. Mas, com a inconstância de tudo, não é impossível que um dia destes se anuncie o regresso ao Génesis primordial, onde do caos se gerará a luz e, sob ela, se criará de novo o mundo.
Assim vai o mundo...
Sabemos menos do tempo do que o tempo sabe de nós. Mas o menos que dele sabemos já chega para sabermos que os próximos dias, os próximos meses, os próximos anos vão ser o tempo de uma grande insónia cercada pela noite que cresce. Hora a hora, minuto a minuto, surgem, por todo o lado, os indícios de uma desgraça que avança e cintilam os sinais de um pânico que corre. Não são apenas as bolsas que caem, nem o desemprego que aumenta, nem as dívidas que crescem, nem os bancos que se afundam. É, antes disso e depois disso, a imagem fúnebre de um sistema financeiro que se devora a si próprio, devorando-nos e devorando a esperança, sem a qual a vida é empurrada para a morte.
Nesta "epopeia americana" que terminou em tragédia mundial, George W. Bush quis ser Aquiles, mas acabou num Édipo de Guantánamo que não conseguiu vencer a esfinge chamada Bin Laden (mas Gore Vidal diz: "Não precisamos de Freud, quando se trata de Calígula"); Dick Cheney é um Creonte de petrolífera; Alan Greenspan, uma Medeia de Wall Street; John McCain, um Pátroclo tardio; Sarah Palin, uma Clitmnestra de casino (ou será Hécuba?). E Barack Obama é o Ulisses de uma Ítaca em chamas, com o mundo transformado na Penélope que o esperava. E por todo o lado ouve-se o grito de Antígona a clamar pela justiça que desobedeça à injustiça que manda.
Aqueles que durante anos aplaudiram, de Washington a Bagdade, a representação da peça, participaram no elenco, escolheram o teatro, serviram de ponto, desenharam o cenário, fizeram os figurinos, teceram o enredo, são agora os mesmos que se fingem surpreendidos com o desfecho: um desastre que começou a revelar-se na sua enormidade e que eles olham como se estivessem a ver o mundo ao contrário. Por isso, andam cada vez mais de cabeça para baixo para tentar vê-lo direito. Num tempo tão despossuído de si mesmo, é natural que já nem haja consciência da tragédia que por todo o lado nos envolve como o ar que respiramos. E essa inconsciência, essa ignorância, essa irresponsabilidade são o mais trágico do trágico.
O tempo sabe mais de nós do que nós sabemos do tempo. E o que ele sabe de nós diz-nos que os próximos anos vão ser terríveis: de incerteza, de insegurança, de perigo, de medo, de ansiedade. Aqueles que, ainda há pouco, se vestiam de um optimismo triunfante e calculista cobrem-se agora de um pessimismo cobarde e assustado. Sabemos que, como é costume, quem vai sofrer mais são os mais inocentes, aqueles que têm menos culpas. Sabemos que os autores do desastre são os que estão a recato dele e dos seus horrores, sem consciência, sem vergonha, sem compaixão - e com dinheiro inesgotável. Sabemos que a vida será um alfabeto de dor, com o qual escreveremos o texto da mudança. Sabemos que voltaremos a passar por essa "confusão cruel e inútil" de que um dia falava George Steiner falando da História. Quando esteve em Lisboa, da última vez, o autor de Errata disse, sobre o que se estava a passar, palavras de que ninguém quis ouvir nem o som, nem o sentido. Ele afirmou: "Espanta-me que os pobres não se revoltem." E acrescentou que estranhava, quando todas as manhãs abria o jornal, não ver lá escrito que "tinham assassinado um daqueles empresários que encerram fábricas e depois se metem nos seus jactos privados para ir passar férias a Barbados". Steiner ecoa neste seu comentário violento o antigo clamor dos profetas judeus do Antigo Testamento, que faziam da cólera uma ameaça e só depois um presságio.
Hoje, o vento mudou e tudo muda com ele. Lemos os jornais de todo o mundo e percebemos que cada jornalista passou a ser, mesmo sem o saber ou sem o querer, um São João que, nos seus vaticínios, promete um Apocalipse que não surgirá, como o outro, no fim dos tempos: este é iminente, instantâneo, vertiginoso. Virá amanhã, logo à tarde, agora mesmo. Mas, com a inconstância de tudo, não é impossível que um dia destes se anuncie o regresso ao Génesis primordial, onde do caos se gerará a luz e, sob ela, se criará de novo o mundo.
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terça-feira, novembro 11, 2008
O mundo da TV...
O primeiro episódio da 5ª série do House estreou ontem! O Wilson vai-se embora... Quero ver mais!!!
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3:44 da tarde
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O mundo do cinema...
Ontem foi dia de cinema! Dois clássicos. Primeiro Jesus Christ Superstar! O clássico dos clássicos dos musicais irreverentes! Foi bom recordar esta bela produção... E confirmar que o grande papel neste filme é de Judas...
Depois, Os Intocáveis! Provavelmente o melhor filme sobre Al Capone (Robert De Niro) e Elliot Ness (Kevin Costner). E ainda Sean Connery! Um verdadeiro clássico com a mítica cena da escadaria e do carrinho de bébé!
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Depois, Os Intocáveis! Provavelmente o melhor filme sobre Al Capone (Robert De Niro) e Elliot Ness (Kevin Costner). E ainda Sean Connery! Um verdadeiro clássico com a mítica cena da escadaria e do carrinho de bébé!
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3:23 da tarde
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segunda-feira, novembro 10, 2008
O mundo da música...
Os Beirut com Elephant Gun! Bela surpresa...
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7:25 da tarde
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O mundo dos jornais...
Na Tabu de Sábado, Nuno Lopes mostra-se uma pessoa complexa! Aquele que todas as semanas entra em nossa casa e nos faz rir n'Os Contemporaneos, mostra-se uma pessoa que tem dificuldades em sentir-se feliz e mais que isso, não vê necessidade em sentir-se feliz! É uma pessoa emotiva e acima de tudo emocional. Confessa-se obsessivo e compulsivo! Acima de tudo confessa-se muito mais do que o conheciamos. Esse é o objectivo de uma entrevista. Permitir, não obrigar, uma pessoa a desvendar-se! Tenho Carlos Magno, Carlos Vaz Marques ou Mário Crespo como exemplos de jornalistas que conseguem ouvir o entrevistado e dar-lhe a confiança suficiente para ele dizer o que quer. A Raquel Carrilho, autora da reportagem, começa a fazer isso muito bem. Por vezes o jornalista não tem de fazer perguntas! Tem de ouvir, seguir o raciocínio e mostrar que ele pode continuar. Para isso é preciso fazer o trabalho de casa e ela fê-lo! Nota-se quando logo no início a referência a Buster Keaton permite desvendar o lado mais sombrio do Nuno. Então, ele não sente necessidade de se defender e dá uma bela entrevista, com entrada ao lado mais negro de um humorista. Gostei muito...
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3:48 da tarde
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sexta-feira, novembro 07, 2008
O mundo das revistas...
Na Ler deste mês, temos uma bela reportagem sobre o Nobel da Literatura! Os eternos favoritos, os preteridos, os esquecidos, os amaldiçoados, os políticos e os que recusaram... Sem dúvida a ler e conhecer!
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3:49 da tarde
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quinta-feira, novembro 06, 2008
O mundo dos jornais II...
Não poderia descrever melhor esse momento que me fascina do que José Manuel dos Santos...
Tempestade
Quando saí à rua, um vento longo e curvo levava tudo consigo. Em frente, o rio alucinava-se, desfazendo a sua quietude de meses, sob uma luz crua e rápida que anunciava o temporal. As pessoas corriam para casa e, nos movimentos que faziam quando aceleravam o passo, havia uma fuga ao céu que as ameaçava. Uma mulher trôpega passou por mim, fez uma cara de temor e disse com uma voz funda e inquieta: "Fuja, fuja! Depressa! Vai chover muito e depois haverá cheia!" Eu fitei-a e acenei que sim com a cabeça, embora não soubesse se tinha razão no seu agouro.
A minha mãe, repetindo a minha avó, também é assim. Ela, que não tem medo de nada, sente pânico nas tempestades, que lhe parecem o maior perigo que o universo põe sobre nós. Altiva para tudo o resto, submete-se ao céu e ao seu poder impaciente. E depois prenuncia a catástrofe na iminência de um apocalipse de relâmpagos, raios e trovões.
Na minha infância nervosa e feliz, quando trovejava, fosse de dia ou de noite, a minha mãe desligava o quadro eléctrico e fechava as portadas de madeira. Ficava então, ansiosa e aguda, a escutar o que dava razão ao seu medo, assim um animal espreita a ameaça na floresta. O meu pai, quando era novo, tinha visto cair um raio ao lado dele e ficou na voz com o eco da voz de Zeus. Falava desse momento e eu sentia nele um susto que 50 anos depois ainda não se dissipara. Vejo ainda hoje o seu rosto assombrado a contar a história do raio.
Agora, continuo a andar à beira da água agitada e sombria. Sou apanhado na curvatura do vento e arrastado num vórtice de papéis, caixas de cartão, sacos de plástico. Digo-me: para o vento, lixo entre lixo. E, ao dizê-lo, tenho consciência de que é fácil sermos subitamente anulados e entregues àquilo que nos nega, negando a nossa vontade e a nossa força. É nessa hora que medimos a diferença que há entre o nosso avanço e o nosso recuo. É nesse minuto que, contra o mundo, aprendemos a resistir, a persistir, a insistir. É nessa altura que conseguimos fincar os pés sobre a nossa impotência, aguentando o embate e esperando que passe a causa que a gera.
O vento sobe ao seu vértice mais alto e eu procuro um abrigo. Passa um cão a uivar com o pêlo sujo. O céu está escuro e fechado, prestes a desabar, para assim se livrar da sua escuridão como alguém se livra de uma angústia, de um desespero, de uma doença. O cão aflito corre até mim, encosta-se-me sob o telheiro. Eu passo-lhe a mão vagarosa pelo corpo arrepiado e sinto-o próximo como um irmão. Então o seu uivo muda: torna-se mais grave - é um latido, depois um rumor, a seguir um respirar leve. O cão olha-me nos olhos, soletra-os, rompe-os. Há nessa procura e na pergunta que, com ela, me faz uma urgência física e uma veemência muda. Não consigo deixar de olhar o seu olhar convexo: e desfaço com a intensidade dos meus olhos o seu susto silencioso e triste.
Tudo parece agora mais sereno, mais liso. Ou sou eu que me esqueço da tempestade e da sua ameaça? Continuo ali, alheado, ao pé do cão sem dono e sem destino. De repente, começa a chover uma chuva espessa e fria, com pingos longos e grossos como cordas. É uma chuva vertiginosa, veloz, que lava o ar. No fim, o universo parece rarefeito, descongestionado como um órgão vital.
A chuva ausenta-se e, no lugar dela, o céu abre sobre nós a sua cor cansada. Avanço na estrada e o cão segue-me com a lealdade que só têm os ameaçados da mesma ameaça. Estou em face do rio horizontal e oscilante. Passa um barco leve sobre a água baixa que se aclara. A bordo, um homem de ar estremunhado olha-me e olha o cão. Nos três olhares que se encontram há uma suspeita boa.
Mas, bruscamente, e como é próprio deste nosso tempo, tudo volta a fechar-se: a luz cai e começa a chover de novo, torrencialmente. Não há abrigo próximo. O cão fica todo molhado e é o espelho do meu arrepio. Sobre nós, abre-se um clarão metálico e a seguir rebenta o trovão. Penso: tenho de me apressar, a esta hora a minha mãe está em casa cercada pelo medo...
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Tempestade
Quando saí à rua, um vento longo e curvo levava tudo consigo. Em frente, o rio alucinava-se, desfazendo a sua quietude de meses, sob uma luz crua e rápida que anunciava o temporal. As pessoas corriam para casa e, nos movimentos que faziam quando aceleravam o passo, havia uma fuga ao céu que as ameaçava. Uma mulher trôpega passou por mim, fez uma cara de temor e disse com uma voz funda e inquieta: "Fuja, fuja! Depressa! Vai chover muito e depois haverá cheia!" Eu fitei-a e acenei que sim com a cabeça, embora não soubesse se tinha razão no seu agouro.
A minha mãe, repetindo a minha avó, também é assim. Ela, que não tem medo de nada, sente pânico nas tempestades, que lhe parecem o maior perigo que o universo põe sobre nós. Altiva para tudo o resto, submete-se ao céu e ao seu poder impaciente. E depois prenuncia a catástrofe na iminência de um apocalipse de relâmpagos, raios e trovões.
Na minha infância nervosa e feliz, quando trovejava, fosse de dia ou de noite, a minha mãe desligava o quadro eléctrico e fechava as portadas de madeira. Ficava então, ansiosa e aguda, a escutar o que dava razão ao seu medo, assim um animal espreita a ameaça na floresta. O meu pai, quando era novo, tinha visto cair um raio ao lado dele e ficou na voz com o eco da voz de Zeus. Falava desse momento e eu sentia nele um susto que 50 anos depois ainda não se dissipara. Vejo ainda hoje o seu rosto assombrado a contar a história do raio.
Agora, continuo a andar à beira da água agitada e sombria. Sou apanhado na curvatura do vento e arrastado num vórtice de papéis, caixas de cartão, sacos de plástico. Digo-me: para o vento, lixo entre lixo. E, ao dizê-lo, tenho consciência de que é fácil sermos subitamente anulados e entregues àquilo que nos nega, negando a nossa vontade e a nossa força. É nessa hora que medimos a diferença que há entre o nosso avanço e o nosso recuo. É nesse minuto que, contra o mundo, aprendemos a resistir, a persistir, a insistir. É nessa altura que conseguimos fincar os pés sobre a nossa impotência, aguentando o embate e esperando que passe a causa que a gera.
O vento sobe ao seu vértice mais alto e eu procuro um abrigo. Passa um cão a uivar com o pêlo sujo. O céu está escuro e fechado, prestes a desabar, para assim se livrar da sua escuridão como alguém se livra de uma angústia, de um desespero, de uma doença. O cão aflito corre até mim, encosta-se-me sob o telheiro. Eu passo-lhe a mão vagarosa pelo corpo arrepiado e sinto-o próximo como um irmão. Então o seu uivo muda: torna-se mais grave - é um latido, depois um rumor, a seguir um respirar leve. O cão olha-me nos olhos, soletra-os, rompe-os. Há nessa procura e na pergunta que, com ela, me faz uma urgência física e uma veemência muda. Não consigo deixar de olhar o seu olhar convexo: e desfaço com a intensidade dos meus olhos o seu susto silencioso e triste.
Tudo parece agora mais sereno, mais liso. Ou sou eu que me esqueço da tempestade e da sua ameaça? Continuo ali, alheado, ao pé do cão sem dono e sem destino. De repente, começa a chover uma chuva espessa e fria, com pingos longos e grossos como cordas. É uma chuva vertiginosa, veloz, que lava o ar. No fim, o universo parece rarefeito, descongestionado como um órgão vital.
A chuva ausenta-se e, no lugar dela, o céu abre sobre nós a sua cor cansada. Avanço na estrada e o cão segue-me com a lealdade que só têm os ameaçados da mesma ameaça. Estou em face do rio horizontal e oscilante. Passa um barco leve sobre a água baixa que se aclara. A bordo, um homem de ar estremunhado olha-me e olha o cão. Nos três olhares que se encontram há uma suspeita boa.
Mas, bruscamente, e como é próprio deste nosso tempo, tudo volta a fechar-se: a luz cai e começa a chover de novo, torrencialmente. Não há abrigo próximo. O cão fica todo molhado e é o espelho do meu arrepio. Sobre nós, abre-se um clarão metálico e a seguir rebenta o trovão. Penso: tenho de me apressar, a esta hora a minha mãe está em casa cercada pelo medo...
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O mundo dos jornais I...
Magnífica a reportagem de Raquel Carrilho na Tabu de Sábado! Feita de histórias com pessoas reais. Pessoas que trocaram esse enorme país que são os EUA por este cantinho à beira mar plantado! A ler...
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quarta-feira, novembro 05, 2008
O mundo americano...
O dia 11 de Setembro de 2001 ficou para História! O dia 4 de Novembro de 2008 também ficará para sempre! O primeiro presidente afro-americano dos EUA. O maior exemplo de mistura de raças elegeu o primeiro não-caucasiano como Presidente! Mas vamos por partes...
Comecemos pelo derrotado! Fiquei contente quando John McCain foi escolhido como candidato republicano. Foi muitas vezes acusado de ser um democrata escondido. Teve posições contra o Partdo Republicano que fizeram com que fosse marginalizado. Teve uma vida cheia de eventos dramáticos e não deixou de lutar pelo que acredita. Ainda assim foi uma campanha mais ou menos limpa (mais do que as primárias democratas). Revelou elevação até no discurso da derrota.
Agora, Obama! Desde já a vitória é um sinal de mudança e de optimismo para o mundo... Não é que as políticas sejam ou poderão ser muito diferentes mas porque o sentimento é diferente! Dá vontade de olhar para os EUA com outros olhos. Obama não é um presidente americano melhor para os Europeus. É melhor para o mundo! O seu percurso de vida atravessou o mundo todo (origens africanas, vida asiática) e conheceu muitas das culturas existentes. Um Presidente com mais visão do mundo! Mas não nos enganemos, ele vai ser um Presidente muito americano. Tal como Bill Clinton, ele irá atacar quem acha que deve atacar! Mas muito mais por ideais politicos do que por interesses económicos. Ele será muito protecionista em termos económicos, porque sabe que tem de melhorar a economia para poder continuar a ser a potência dominante. Nem sempre o mundo vai concordar com Obama! Não é isso que se espera. Mas sim podermos entender que ele tem um sentido de Estado e um respeito pelo mundo que a anterior administração não teve. Espera-se sobretudo que ele continue a inspirar-nos com belos discursos, como por exemplo o de ontem...
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Comecemos pelo derrotado! Fiquei contente quando John McCain foi escolhido como candidato republicano. Foi muitas vezes acusado de ser um democrata escondido. Teve posições contra o Partdo Republicano que fizeram com que fosse marginalizado. Teve uma vida cheia de eventos dramáticos e não deixou de lutar pelo que acredita. Ainda assim foi uma campanha mais ou menos limpa (mais do que as primárias democratas). Revelou elevação até no discurso da derrota.
Agora, Obama! Desde já a vitória é um sinal de mudança e de optimismo para o mundo... Não é que as políticas sejam ou poderão ser muito diferentes mas porque o sentimento é diferente! Dá vontade de olhar para os EUA com outros olhos. Obama não é um presidente americano melhor para os Europeus. É melhor para o mundo! O seu percurso de vida atravessou o mundo todo (origens africanas, vida asiática) e conheceu muitas das culturas existentes. Um Presidente com mais visão do mundo! Mas não nos enganemos, ele vai ser um Presidente muito americano. Tal como Bill Clinton, ele irá atacar quem acha que deve atacar! Mas muito mais por ideais politicos do que por interesses económicos. Ele será muito protecionista em termos económicos, porque sabe que tem de melhorar a economia para poder continuar a ser a potência dominante. Nem sempre o mundo vai concordar com Obama! Não é isso que se espera. Mas sim podermos entender que ele tem um sentido de Estado e um respeito pelo mundo que a anterior administração não teve. Espera-se sobretudo que ele continue a inspirar-nos com belos discursos, como por exemplo o de ontem...
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terça-feira, novembro 04, 2008
O mundo americano..
Hoje são as eleições americanas!! Prometo que depois de analisar os resultados vos deixo em paz com isto... A propósito, bela reportagem na Única de Sábado!
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segunda-feira, novembro 03, 2008
O mundo do cinema...
A propósito do filme A Intérprete, lembrei-me de uma reflexão sobre África! Esse continente que se tem esquecido de progredir pacificamente porque está sempre envolto em lutas fraticidas, etnicidas, enfim, homicidas. Esse continente que se perde em corrupções, despotismos, enquanto os seus povos morrem à fome, doença, tristeza! O maior exemplo como o poder pode corromper os melhores ideais. Como a melhor teoria não anda de mãos dadas com a realidade. A história do continente mais genuíno, como todas as suas fraquezas e forças. O continente-mãe...
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domingo, novembro 02, 2008
O mundo americano...
As eleições americanas vistas pelo ex-diplomata Jose Cutileiro.
Deveríamos todos poder votar na eleição do Presidente americano: europeus, sul americanos, asiáticos, australianos, africanos. Se tivesse sido assim em 2004 John Kerry haveria tomado conta da Sala Oval, poupando a América e o mundo a mais quatro anos de George W.. Desta vez, a menos que um número enorme de brancos esteja a mentir nas sondagens e, à puridade do voto secreto, se recuse a votar num preto, os estrangeiros não fariam falta a Barack Obama porque os próprios americanos o elegerão.
Quanto mais depressa os Estados Unidos recuperarem, aos seus próprios olhos e aos olhos do mundo, a reputação perdida nos oito anos presididos por George W. Bush, mais depressa recuperarão a posição hegemónica conferida pelo seu poder militar, o seu poder económico e financeiro e - antes dos abusos desastrosos de Guantánamo, Abu Grahib, tortura, Patriot Act, escutas não autorizadas, politização indevida do funcionalismo público, etc. - o seu poder moral. Essa recuperação será mais rápida se Obama ganhar do que se Obama perder. Cassandras lembram que a esperança posta nele levará inevitavelmente a desilusões devastadoras, mas a questão não é essa.
Primeiro, no estado actual do mundo ter esperança será meio caminho andado. No viver cinzento e ansioso dos dias de hoje, assustado por espasmos financeiros ou terroristas, um político decente capaz de dar alma aos seus (e aos outros) é ávis rara bem-vinda. Haverá desilusões mas não haverá desastres, sobretudo se o bom senso aparente do novo presidente marcar a sua acção e contagiar os seus fiéis.
Segundo, o país mais parecido com o que seria a América de Barack Obama é a América de George W. Bush. Ao ritmo dos estados de direito, o que nesta há de pior seria banido e o melhor seria multiplicado mas o grosso de interesses e valores que constituem os Estados Unidos permaneceria. Bom senso, mais uma vez, ajudaria estrangeiros a perceberem isso e a disso tirarem partido. Para segurança e equilíbrio do mundo inteiro é urgente que os Estados Unidos voltem a encarrilar. Mais urgente ainda para os europeus, que têm neles os seus parceiros políticos, económicos e militares principais. Na arquitectura financeira internacional, no combate ao aquecimento global, no desafio energético, no enraizamento da democracia, em conflitos perigosos para a paz mundial, nenhuma medida decisiva poderá ser tomada até haver novo inquilino na Casa Branca.
Na segunda metade do século XX os republicanos foram mais de fiar a lidar com o resto do mundo do que os democratas mas George W. desbaratou esse crédito. E, embora em política externa McCain e Obama sejam mais parecidos do que se julga, o democrata mostra juízo e discernimento que têm faltado ao republicano. Os Estados Unidos reafirmariam melhor, mais depressa e mais tranquilamente a sua hegemonia com Obama ao leme. Se McCain ganhar e for buscar alguns sábios do passado, não se sairá mal - mas faltar-lhe-á o golpe de asa do senador de Illinois.
Assim vai o mundo...
Deveríamos todos poder votar na eleição do Presidente americano: europeus, sul americanos, asiáticos, australianos, africanos. Se tivesse sido assim em 2004 John Kerry haveria tomado conta da Sala Oval, poupando a América e o mundo a mais quatro anos de George W.. Desta vez, a menos que um número enorme de brancos esteja a mentir nas sondagens e, à puridade do voto secreto, se recuse a votar num preto, os estrangeiros não fariam falta a Barack Obama porque os próprios americanos o elegerão.
Quanto mais depressa os Estados Unidos recuperarem, aos seus próprios olhos e aos olhos do mundo, a reputação perdida nos oito anos presididos por George W. Bush, mais depressa recuperarão a posição hegemónica conferida pelo seu poder militar, o seu poder económico e financeiro e - antes dos abusos desastrosos de Guantánamo, Abu Grahib, tortura, Patriot Act, escutas não autorizadas, politização indevida do funcionalismo público, etc. - o seu poder moral. Essa recuperação será mais rápida se Obama ganhar do que se Obama perder. Cassandras lembram que a esperança posta nele levará inevitavelmente a desilusões devastadoras, mas a questão não é essa.
Primeiro, no estado actual do mundo ter esperança será meio caminho andado. No viver cinzento e ansioso dos dias de hoje, assustado por espasmos financeiros ou terroristas, um político decente capaz de dar alma aos seus (e aos outros) é ávis rara bem-vinda. Haverá desilusões mas não haverá desastres, sobretudo se o bom senso aparente do novo presidente marcar a sua acção e contagiar os seus fiéis.
Segundo, o país mais parecido com o que seria a América de Barack Obama é a América de George W. Bush. Ao ritmo dos estados de direito, o que nesta há de pior seria banido e o melhor seria multiplicado mas o grosso de interesses e valores que constituem os Estados Unidos permaneceria. Bom senso, mais uma vez, ajudaria estrangeiros a perceberem isso e a disso tirarem partido. Para segurança e equilíbrio do mundo inteiro é urgente que os Estados Unidos voltem a encarrilar. Mais urgente ainda para os europeus, que têm neles os seus parceiros políticos, económicos e militares principais. Na arquitectura financeira internacional, no combate ao aquecimento global, no desafio energético, no enraizamento da democracia, em conflitos perigosos para a paz mundial, nenhuma medida decisiva poderá ser tomada até haver novo inquilino na Casa Branca.
Na segunda metade do século XX os republicanos foram mais de fiar a lidar com o resto do mundo do que os democratas mas George W. desbaratou esse crédito. E, embora em política externa McCain e Obama sejam mais parecidos do que se julga, o democrata mostra juízo e discernimento que têm faltado ao republicano. Os Estados Unidos reafirmariam melhor, mais depressa e mais tranquilamente a sua hegemonia com Obama ao leme. Se McCain ganhar e for buscar alguns sábios do passado, não se sairá mal - mas faltar-lhe-á o golpe de asa do senador de Illinois.
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O mundo do humor...
Morreu Badaró!
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sábado, novembro 01, 2008
O mundo da música...
Grande música...:D Os Madcon pegaram numa música de Frankie Valli e deram-lhe uma nova roupagem! Aqui está Beggin...
Assim vai o mundo...
Assim vai o mundo...
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Francisco del Mundo
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1:16 da tarde
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quarta-feira, outubro 29, 2008
O mundo das letras...
Magnífica a entrevista a Gonçalo M. Tavares na revista Tabu de Sábado! Eu nunca o li, apesar de saber que ele tem de ser muito bom. Encontrei na entrevista muitos elementos que posso transpor para mim. Senti que tenho de o ler urgentemente. Quase como uma necessidade. Estranha sensação!! Mas boa...
Assim vai o mundo...
Assim vai o mundo...
Publicada por
Francisco del Mundo
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4:28 da tarde
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O mundo da música...
Newton Faulkner é uma grande surpresa! Aqui com uma bela versão de Bohemian Rhapsody...
Já agora a extraordinária Teardrop...
Assim vai o mundo...
Já agora a extraordinária Teardrop...
Assim vai o mundo...
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Francisco del Mundo
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4:12 da tarde
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terça-feira, outubro 28, 2008
O mundo do humor...
Nuno Lopes está cada vez mais brilhante...
E como esquecer estes dois momentos:
Assim vai o mundo...
E como esquecer estes dois momentos:
Assim vai o mundo...
Publicada por
Francisco del Mundo
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8:08 da tarde
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O mundo...
Bom saber que os meus posts são lidos nos EUA, mesmo que seja para discordar!
Assim vai o mundo...
PS- Translation: Good to know that my posts are read in the USA, even if it is to disagree!
Assim vai o mundo...
PS- Translation: Good to know that my posts are read in the USA, even if it is to disagree!
Publicada por
Francisco del Mundo
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6:54 da tarde
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