Maravilhoso texto de Luis Fernando Veríssimo sobre os sonhos na Actual de ontem...
Sonhar é como ir ao cinema. Seus olhos se fechando são como as luzes do cinema se apagando e seu sonho é como um filme projectado na tela. Só que...
Só que, mesmo que você não saiba exactamente o que vai ver no cinema, tem uma ideia. Leu uma sinopse do filme no jornal, viu o cartaz. Sabe se vai ver um drama ou uma comédia. Sabe quem são os actores. Sabe que, se for filme de horror, vai se assustar. Se for um filme com o Sylvester Stallone, vai ter soco. Etc. Quer dizer: entra no cinema preparado. Mas nunca dorme sabendo o que vai sonhar.
Ninguém está preparado para o que vai ver no sonho. Será um pesadelo? Será um sonho romântico? Lúbrico? Engraçado? Um sonho estranho, com tartarugas cantantes acompanhando em coro um dueto lírico do Stallone com aquela sua antiga professora de matemática? Você não sabe. O sonho é sempre uma surpresa.
E outra coisa: se não estiver gostando do filme, pode sair na metade. Com o sonho, isso é difícil. O ideal seria se pudesse escolher seu sonho. Ou pelo menos descobrir como ele seria, para saber o que esperar. Uma espécie de sinopse. Por exemplo...
"Drama de costumes. Você é um cossaco na Rússia imperial e recebe ordens para arrasar um vilarejo onde todos os homens se chamam Rimski e fazem sexo com cabras, o que não seria tão ruim se as cabras não usassem máscaras do czar. No meio do entrevero surge, misteriosamente, a sua mãe e manda você voltar para casa e não esquecer de lavar as mãos, e o seu cavalo vai rindo o tempo todo."
"Drama psicológico. Você está num apartamento que não conhece. Sente que precisa sair dali mas não encontra a saída. Perambula pelas peças vazias até chegar numa em que há um homem estirado num divã. É o dr. Freud dormindo uma sesta. Você o sacode, para perguntar onde fica a saída. Ele acorda, sobressaltado, e diz: 'Ach, bem na hora do chantili no umbigo!', e passa a persegui-lo por dentro do apartamento, obrigando você a pular por uma janela e cair na cadeira do senador Heráclito Fortes, que felizmente está viajando. Você tenta fugir de Brasília mas também não encontra a saída."
"Comédia romântica. Tudo se passa num resort do Caribe. Você confundiu as Patrícias, combinando um fim-de-semana com a Pilar mas indo com a Poeta. Descobre que a Pilar chegou no hotel atrás de você. Há cenas hilariantes, como a de você se disfarçando de palmeira para não ser reconhecido e fingindo ser um garçom no 'luau' até tropeçar na Luana Piovani e cair dentro da fogueira. A Luana leva você para fazer curativos na sua cabana enquanto a Pilar e a Poeta, que se juntaram, procuram por você. No fim, as três se unem para jogá-lo no mar, onde você é recolhido por um iate e adoptado pela Angelina Jolie."
"Horror. Você está num bastidor e alguém acaba de lhe dar uma batuta para reger a grande orquestra sinfónica que o espera no palco. 'Vá', diz alguém no seu ouvido. Há ruídos de impaciência vindos da plateia. A orquestra também está inquieta. Onde está o maestro? Mas você não é maestro. Você não entende nada de música. Você não sabe o que está fazendo ali. E você está nu. 'Vá', dizem outra vez. 'Eu estou sem roupa', protesta você. 'Vai assim mesmo, agora não há mais tempo.' Você tenta desesperadamente retardar sua entrada no palco. 'O programa. Eu não sei qual é o programa!' 'Toca qualquer coisa' é o conselho que lhe dão. 'O importante é entrar no palco.' 'Mas eu estou nu!' 'Não interessa, entra!' E você é empurrado para o palco. Ouve o som do espanto colectivo da plateia. A orquestra também está de boca aberta. O primeiro violino recua, para evitar qualquer contacto com você. Você sobe no estrado, olha para o lado e o seu horror aumenta. Esperando nos bastidores estão um coro de tartarugas, o Sylvester Stallone e aquela sua antiga professora de matemática esperando a sua vez de entrar."
Li de uma assentada o "Extensão do domínio da luta" de Michel Houellebecq! O francês tem um escrita fria, dura, escalpelizante! Traça um retrato cru e muito crítica da sociedade francesa. Não é uma leitura fácil apesar de ser simples. Fiquei com curiosidade de ler algo mais deste autor.
Boa edição da Única de Sábado sobre a Rua da Democracia... A propósito, fica aqui o texto de José Manuel dos Santos sobre o dia 25 de Abril de 1974.
O dia Os grandes dias são os que parecem mais pequenos. Neles, o tempo passa sem nos lembrarmos de nós, senão para repararmos nisso. Nesse dia, ele dormia quando, ainda era muito cedo, o telefone tocou. Ouviu-o tocar, mas não se levantou para o atender. Tinha-se deitado tarde, já o barco da noite passara o meio do seu mar, e queria dormir durante a manhã. Nas demoradas horas do antes de adormecer, esteve a ler um livro que se lhe tornara o corpo do seu corpo. Há livros assim: puxam-nos para um túnel de que não conseguimos sair a não ser no fim. Por isso, naquele princípio do dia, ele dormia e queria continuar a dormir. Mas o telefone voltou a tocar e ele voltou a não se levantar para o atender. O tempo ouvia-se no tiquetaque do relógio que o media. A irritação despertava-o, mas ele fazia tudo para separar a causa do seu efeito. Deu uma volta na cama, tentou adormecer de novo e, quando o corpo já se entregava ao sono como a um algoz, o telefone tocou outra vez e ainda mais outra vez. Lançou então o lençol contra o mundo e, de um salto, levantou-se. Pelo vidro, olhou a manhã e viu que havia uma chuva ameaçada. O telefone parou de tocar e enfureceu-o, assim antes o enfurecera por não ter parado de tocar. Ficou à espera, à espreita. Mal soou a campainha, levantou o auscultador com o gesto de quem acha o que procura. E ouviu a voz de um amigo a contar-lhe, sem fôlego, o que estava a acontecer. Atirou o auscultador contra o telefone e atirou-se contra a água do duche. Vestiu a roupa da véspera e correu para as ruas e praças, onde havia já gente a olhar com olhos fixos de ansiedade. Esqueceu-se então de tudo, menos do que estava a ver. Disso, nunca mais se esqueceria. Viu os tanques e os soldados. Viu pessoas a avançarem e pessoas a recuarem. Viu gente a aparecer e gente a desaparecer. Viu, viu, viu - e quis ver para acreditar, São Tomé de um prodígio, de uma ressurreição, de uma revelação, de uma revolução. Andou sem parar, excepto quando o pararam. Nunca tinha sido tão ágil, tão agudo, tão atento, tão oblíquo, tão íngreme, tão perspicaz, tão pérfido, tão persuasivo. Nunca tinha experimentado tanto a fusão do espaço com o tempo. Ao princípio, não conseguia entender bem as regras daquele jogo de vida e de morte. Não conhecia quem era quem. Não compreendia de que lado estava o quê. Não sabia quem estava a ganhar, quem estava a perder. Não percebia o que decidia a vitória. Não tinha a visão do tabuleiro e do seu xadrez. Por isso, enquanto as horas passavam sem ele dar por elas passar, correu da Praça do Comércio para a Rua do Arsenal, da Rua do Arsenal para a Rua do Alecrim, da Rua do Alecrim para o Largo do Camões, do Largo do Camões para o Chiado, do Chiado para a Calçada do Sacramento, da Calçada do Sacramento para o Largo do Carmo. Aí chegado, ficou a ver o que mais tarde toda a gente viu. Ficou a ouvir o que depois toda a gente ouviu: a multidão a falar baixo, depois a falar alto, depois a falar ainda mais alto. Ouviu a voz que vinha da árvore: Francisco Sousa Tavares, na sua rouquidão megafónica, proclamava a gravidade, o sentido e o risco daquele acontecer. Ouviu as ameaças e os tiros. Ouviu o silêncio e o seu ressoar. Viu sair do quartel, já a luz se fechava, o chaimite, cercado por mãos que queriam erguer-se aquém da vingança, além do medo. Ouviu e viu tudo isso, mas só realizou o que tudo isso era mais tarde. Reparou, nesse mais tarde, que se tinha esquecido de almoçar e de jantar, que não comia nada há vinte e quatro horas. Foi o momento em que a realidade lhe chegou e, com ela, a alegria. E o choro. E o riso. Nessa noite, não dormiu: só sonhou. Levantou-se antes de a madrugada vir e saiu outra vez para a rua. Durante esse novo dia, durante os novos dias que se seguiram a esse novo dia (mas todos pareciam o mesmo dia), caminhou e não conheceu nem a pausa, nem o cansaço. Como ele, as pessoas andavam sem pôr os pés no chão. Com elas, voou para a Rua da Misericórdia, foi à António Maria Cardoso, correu a Palhavã. À noite, passou no Rossio e viu o Mário Cesariny, de máquina fotográfica levantada em frente da cara, a fotografar um marinheiro que sorria, primeira imagem da Aliança Povo-MFA. Viu mais. Mais. Muito mais. Todos esses sítios foram dias e todos esses dias foram sítios. Por isso, quando passa nesses sítios, em dias que lembram esses dias, sente sempre o regresso de uma alegria inextinguível. Mas, às vezes, vê também a tristeza saltar sobre essa alegria.
José Manuel dos Santos Colunista regular do "Actual"
No sábado passou no Canal 2, o documentário "Movimento Perpétuo" sobre Carlos Paredes. É sempre com um enorme prazer que volto a ele! Um génio da música, um virtuoso da guitarra, um homem tranquilo e humilde, esquecido por uma certa elite cultural que o fez estar desterrado a arquivar radiografias. Que tenha sido negligenciado em vida não podemos fazer nada, mas por mim tem de ser relembrado para sempre como um dos grandes expoentes da música portuguesa...
Foi dia de ver o filme "Show de Bola"! A estória de Tiago, um menino bom de bola que luta para não cair no mundo perigoso das favelas. Um filme brasileiro engraçado, que se vê muito bem...
Mais uma loucura cinematográfica de Frank Miller depois de Sin City! The Spirit conta a estória de um herói cartoon, que luta contra um vilão cartoon. Com um elenco de luxo e uma fotografia fabulosa, um belo filme para ver...
Ainda vou voltar a isto mas acho sinceramente que escondeu-se a crise durante tempo de mais e agora está a exagerar-se nas consequências dela.. mas voltarei a isto...
Já que tive a semana toda a trabalhar, só pude ler os jornais semanais ontem à noite. Duas coisas:
- Na Tabu da semana passada, a reportagem da Raquel Carrilho sobre a Michelle Obama. Parece-me que os norte-americanos não escolheram só um grande Presidente, mas também uma 1ª Dama fantástica. E tal como o marido, veio para quebrar alguns protocolos e instituições que já não tem razão de existir. Como por exemplo, o facto de ter abraçado a Rainha de Inglaterra! O mundo está farto de formalismos e precisa é de afectos. E quem ficou mais incomodado não foi a Rainha mas o fleumático povo britânico. Depois, pegaram com os vestidos sem mangas que ela usa! Ora ela é uma mulher com tudo no sítio, uma beleza bem afro-americana. Porque é que tem de se encher de roupa? Fosse isso o problema do mundo. E porque mesmo que a critiquem, ela tem força de espírito suficiente para manter o seu caminho. Ou não lhe chamasse o marido "The boss"...
- na Única da semana passada, uma experiência interessante. Uma espécie de relato de José Eduardo Agualusa de uns dias passados em Amsterdão e acabou um novo romance. Um olhar sempre muito pertinente de um dos melhores escritores africanos...
- Primeiro um filme muito bom que passou um pouco despercebido entre nós.. Falo do filme Doubt/A dúvida (que teve até em cena em Portugal com Diogo Infante e Eunice Muñoz). Um filme de diálogos muito bem escritos e que mostra o confronto entre um padre (um Philip Seymour Hoffman magistral) e uma Meryl Streep (que não sabe ser má actriz). É um filme que nos deixa sempre em dúvida e que tem um momento brilhante de escrita aquando do sermão sobre o boato. Recomento vivamente...
- Depois o filme de animação Madagáscar 2 em português! Já o primeiro filme tinha sido a minha iniciação aos filmes dobrados em português. E não resisti a ver este também em português, sobretudo por causa do Bruno Nogueira (e no primeiro os Gato Fedorento). Um filme divertido, óptimo para crianças e adultos e que tem um momento hilariante quando aparece uma não tão simpática velhota.
Um caro amigo mostrou-me um projecto ao qual se encontra ligado e que achei por bem divulgar:
Foi inaugurado o site antigosalunos.net, destinado ao reencontro de antigas amizades dos nossos tempos de estudo ou mesmo de qualquer tipo de cursos pós-graduações ou afins. Na base de dados, encontram-se incluídos todos os tipos de instituições, desde jardins de infância até universidades. As que não se encontrarem na base de dados (instituições ou cursos), está previsto o envio facilitado, para o site, de uma info, pelo utilizador, de um mail solicitando a inclusão da instituição/curso em falta.
Sendo assim e assin sendo, incito-vos a irem espreitar e participar nesta bela ideia...
No Expresso da semana passada, no caderno Actual, vinha a seguinte crítica de Jorge Manuel Lopes ao álbum Ten dos Pearl Jam:
"Em «The Wrestler», Mickey Rourke lamenta que o caminha glorioso do glam metal de Guns N' Roses e companhia tenha sido arruinado nos anos 90 com a chegada de Kurt Cobain e do grunge. A queixa de Rourke é justa, mas engana-se no alvo: o problema não foram os Nirvana, mas sim os Pearl Jam, cujo álbum de estreia volta agora como o inusitado grande acontecimento de 2009 no campeonato das reedições. «Ten» saiu no Verão de 1991, demorou a explodir no mainstream, mas acabou por vender quase dez milhões de exemplares só nos Estados Unidos e influenciar profundamente um tempo e uma geração. À distância de 18 anos, o êxito e a relevância deste disco são inexplicáveis. Do glam metal, os Pearl Jam (e o grunge) excisaram o glam,, a agilidade, a exuberância visual, a força rítmica e, pior que tudo, as canções. «Ten» é um pastelão disforme e atolado em autocomiseração, 11 capítulos onde Eddie Vedder mastiga sílabas e o resto da banda toca rock virtuoso e castrado."
Ora, eu não consigo entender para que serve uma crítica assim! Se alguém não gosta tanto de uma coisa, mais vale estar calado e ir ouvir outra. Com certeza já se perceberia que este crítico não gosta de grunge e sobretudo dos Pearl Jam. Eu discordo totalmente. Acho que são um grupo que marcou uma geração e "Ten" é um daqueles álbuns que marca um momento da música. Aqui fica o meu tributo:
1 - Agarra o livro mais próximo; 2 - Abre na página 161; 3 - Procura a 5ª frase completa; 4 - Coloca a frase no blog; 5 - Indica 5 pessoas para continuar a tarefa. (eu desafio toda a gente que ler isto)
Ora eu tenho um problema! O livro que está mais perto é o "Extensão do domínio da luta" de Michel Houellebecq, mas ele não tem página 161. Sendo assim peguei no meu Moleskine, fui à página 161, e a quinta frase faz parte de uma carta que escrevi, sendo que calha numa citação de uma carta de Napoleão a Josefina:
"Não passo um dia sem te desejar, nem uma noite sem te apertar nos meus braços."
- A reportagem da Raquel Carrilho sobre os vícios menos recomendáveis dos Presidentes dos EUA e seus familiares. Um país que tenta ser exemplar em democracia e também um dos mais puritanos. Clinton, Bush, Obama e seus familiares são escrutinados e julgados caso a sua vida não seja perfeita. Pois bem, eu prefiro um homem que beba mas seja um bom político (como Churchill) do que um que seja abstémio mas seja um ditador (como Hitler).
- Bom ler que Catarina Portas se lembrou dos antigos "Bóias" (quiosques que vendiam bebidas) e irá recuperar 30 até Outubro. São tradições que devem ser acarinhadas.
- Um trabalho abrangente e exaustivo sobre a NATO. Uma instituição que tem um futuro complicado porque está com dificuldades em adaptar-se a uma realidade diferente daquela onde nasceu (Guerra Fria).
- Um belo trabalho sobre um homem e jogador de futebol exemplar: Shéu Han! Filho de pai chinês e mãe moçambicana, fez a sua carreira quase toda no Benfica. O facto de ter apanhado apenas um amarelo em toda a carreira mostra como um futebolista pode ter um comportamento exemplar.
- Junto-me ao repto de Luís Filipe Borges para que a Sic Radical transmita o Tonight Show com Conan O'Brien.
- Associa-me ao medo demonstrado por José Antonio Saraiva no medo de algo acontecer a um filho. E concordo com ele quando diz que uma das melhores maneiras de salvar crianças de morrer afogadas é ensinar-lhes a nadar bem cedo.