terça-feira, setembro 29, 2009

O mundo da política...

Ainda a propósito de política, o artigo de José Manuel dos Santos no Expresso de Sábado...

Um Homem Comum

A política é-lhe próxima e distante. Próxima, porque lhe dá atenção e, mesmo quando se irrita ou descrê, não se deixa tentar pela indiferença ou pela renúncia. Distante, porque a vida enrola-o com os seus fios e não lhe deixa tempo nem ânimo. Por isso, participa pouco, mas não se distrai. Gosta de conversar com os colegas e amigos sobre o que acontece. Gosta de os contradizer, de os provocar, acabando tudo bem.

Lembra-se dos tempos em que a política gerava injúrias e zangas, provocava conflitos e desacatos. Esses foram os tempos da Revolução e do que se lhe seguiu. Antes do 25 de Abril, era discretamente do contra: dizia mal em voz baixa. Depois do 25 de Abril, quis informar-se. Leu os programas dos partidos. Comprou alguns livros de teoria política: os clássicos e os que explicavam os clássicos. Nessa altura, leu uma frase que o marcou: "Se há três chapéus e cinco cabeças, ou fazem-se mais dois chapéus ou cortam-se duas cabeças." A primeira hipótese pareceu-lhe mais razoável...

Depois de algumas hesitações, aproximou-se do PS. A ideia de um 'socialismo em liberdade' agradava ao seu humanismo sentimental. Ouviu Mário Soares, chegado do exílio à Estação de Santa Apolónia, e permaneceu atento ao que ele dizia. Impressionava-o Cunhal e a sua aura, mas, pelo que sabia da União Soviética, tinha uma grande desconfiança do comunismo. Admirara o Sá Carneiro da Ala Liberal, mas, pouco a pouco, foi deixando de o reconhecer. Com o acelerar da Revolução ficou claramente do lado daqueles que se opunham à radicalização. Nas primeiras eleições, votou no PS e gostou de ganhar. Meses depois, esteve na Fonte Luminosa. Nesse tempo, isso sim!, discutia política com fervor e fúria. Zangou-se até com um cunhado e dois primos.

Depois, a política acalmou. Ele continuou a votar no PS. Às vezes, era-lhe difícil defender certos actos, certas palavras, certos silêncios do governo. Dizia: "Eu votei no PS, mas com isso não concordo!" Houve momentos em que se arrependeu de assim ter votado. Mas, se olhava à volta, ficava mais conformado. Os anos foram passando e ele continuou a votar no PS: umas vezes, com entusiasmo; outras, com resignação. Numa eleição, absteve-se. Depois, arrependeu-se. Noutra, zangado com uma decisão que o atingia directamente, votou noutro partido. Depois, arrependeu-se ainda mais.

Com a distância do tempo, analisou e concluiu que o PS, como todos os que governam, cometeu erros, teve ministros bons e maus, fez coisas que não devia ter feito e não fez outras que devia ter feito. Mas, tudo medido e pesado, não falhou no essencial.

Nas eleições de 2005, perante a situação a que se chegara, andou a convencer colegas, à direita e à esquerda, a votar no PS. Deu por si a defender a ameaçada dignidade das instituições! Ao ver que os socialistas alcançaram a maioria absoluta, ficou aliviado. Sabia que vinham aí tempos difíceis. Mas, pelo menos, havia um governo a governar e a 'fazer reformas'. Pagou também os custos de algumas delas. Reconhecia, porém, a sua necessidade e urgência. Às vezes, pensava que a mesma coisa podia ser feita de outra maneira... E assim o tempo foi passando, com as sondagens a dizerem que, apesar de tudo, a maioria das pessoas compreendia e apoiava o governo.

De repente, percebeu que o clima estava a mudar. Sócrates começou a ser atacado com uma ira que o surpreendeu: tornou-se o homem a abater. Explicava isso pela instabilidade dos portugueses, que, bipolares políticos, oscilam entre a atracção pela tirania e o fascínio da anarquia. Comentava com os colegas: "Quando o governo do Cavaco acabou, toda a gente gritava contra o autoritarismo e a arrogância, exigindo diálogo. Por isso, a seguir, ganhou o Guterres. Quando o governo do Guterres terminou, toda a gente protestava contra o diálogo e reclamava autoridade e firmeza. No fim do governo do Santana, bramava-se contra as trapalhadas e a confusão. Agora, já se diz outra vez que há autoridade a mais. Exigem reformas e, quando alguém as faz, ficam todos furiosos! Afinal, em que ficamos?! Eu não percebo os portugueses."

De facto, não percebe! Sabe que houve erros, mas o fundamental foi feito. Acha Sócrates um governante capaz, responsável. Não vê melhor - todos os outros são piores! O Louçã irrita-o. A Ferreira Leite deprime-o. O Portas fatiga-o. O Jerónimo desinteressa-o. Sobretudo num momento de crise, pensa que os portugueses estão a brincar com o fogo. Ele próprio brincou com o fogo: nas europeias, não votou. Quando viu os resultados, ficou com má consciência. Tornou-a boa, dizendo: "Pode ser que aprendam com o susto!"

Agora, quando lhe perguntam: vais votar em quem?, responde: "Vou votar no Sócrates. Conheces alguém melhor?!..." E ri, com um riso nervoso...

Assim vai o mundo...

segunda-feira, setembro 28, 2009

O mundo das eleições...

Uma análise rápida aos resultados eleitorais!

- O PS é um vencedor menor das eleições. Manteve o governo mas perdeu a maioria! Terá que ser muito mais diplomático porque terá que fazer acordos parlamentares ou com o PSD, ou com o PP ou com Bloco e PCP juntos! É uma vitória mas que mostra o ambiente diferente de há 4 anos.
- O PSD foi o maior derrotado! Viu o PS ganhar as eleições, viu o PP crescer enormemente e será provavelmente excluido de qualquer negociação parlamentar. Foram muitos os erros na campanha e fica a sensação que outra pessoa poderia ter levado o PSD à vitória.
- O PP foi o grande vencedor! Apontado como a quinta força política, chegou ao terceiro lugar com o melhor resultado em mais de vinte anos. Ultrapassou os 10%, chegou aos 21 deputados e coligado com o PSD pode transformar-se numa força de bloqueio ao governo socialista. Ou então a ajudar nesse mesmo governo, a nível parlamentar.
- O Bloco de Esquerda teve uma vitória, mas não tão grande como seria de prever. Apesar de passar de 6 para 16 deputados e de ter ultrapassado o meio milhão de votos, pensava-se que o seu resultado seria decisivo para uma possível maioria de esquerda. Mas não! Conseguiu retirar a maioria ao PS, mas o extraordinário resultado do PP apagou um pouco esta vitória.
- O PCP teve uma derrota mascarada de vitória! Ganhou um deputado e mais 0,3%, mas cada vez mais é a quinta força política. Vê o PS ganhar as eleições, vê a direita (através do PP) ganhar força e vê o Bloco assumir-se como segundo partido de esquerda.
- Nos pequenos partidos, uma palavra para a sexta força política ter voltado a ser o eterno PCTP de Garcia Pereira e a queda em termos de votos (comparativamente com as europeias) do MEP. Este movimento que simpatizo tem de analisar este resultado e reorganizar-se para as autarquicas.

Assim vai o mundo...

domingo, setembro 27, 2009

O mundo eleitoral...

Eu já votei! E vocês? Vá, ainda vão a tempo... E é importante que todos participemos...

Assim vai o mundo...

sexta-feira, setembro 25, 2009

O mundo dos jornais....

A cronica sempre divertida e realista de Luis Fernando Veríssimo no Expresso...

Diálogos

Não conheço os números exactos, mas acho que confere: hoje há mais mulheres trabalhando em jornais do que homens. Como há cada vez mais mulheres em outras profissões, ou posições, antes ocupadas só por homens. Em breve...
Corta para a sala de estar de um típico casal de classe média. Ano: digamos, 2049.
- Querida...
- Hm?
- Me passa o "Suplemento Masculino"?
- Eu estou lendo.
- Você está lendo a primeira parte do jornal, Jandira. Eu só quero o "Suplemento Masculino".
- Eu estou lendo todo o jornal, Luiz Henrique.
- Mas você nunca lê o "Suplemento Masculino". Eu quero ver as novidades da moda Primavera-Verão para homens e...
- Você sabe que eu não gosto de desfolhar o jornal, Luiz Henrique. Tenha um pouco de paciência. Quando eu terminar, você vai poder ler tudo. A primeira parte, as notícias políticas, o caderno de economia...
- E eu lá me interesso por política e economia? Só quero o "Suplemento Masculino".
- Pois vai ter que esperar.
- Como você é, Jandira!

Carácter

- Prove este Chateau Lambuze...
- Hmmm. Sim. Elegante... Bem torneado...
- E os taninos? O que me diz dos taninos?
- Equilíbrio perfeito.
- E os minerais?
- No ponto.
- Um vinho com uma certa nobreza, pois não?
- Eu até diria... uma certa arrogância.
- Justificada, justificada. E o après gout
- Ainda não cheguei lá. Noto toques de frutas vermelhas...
- E tabaco. Sentiu o tabaco?
- Mmmm... E sândalo.
- E carvalho. E canela.
- E, ou muito me engano, ou um traço de... pano de prato?
- O quê?
- Decididamente, pano de prato.
- Acho que você tem razão... Entre o mirtilo e a baunilha. Pano de prato.
- E pensar que o Parker deu 98...
- O Chateau Lambuze nunca foi dos mais cuidadosos com a higiene.
- Se bem que o pano de prato dá ao vinho um certo...
- Carácter?
- Exacto.
- E o après gout? O que me diz do après gout?
- Memorável.

Viver
(Da série "Poesia numa hora destas?!")
Viver requer prática, habilidade
e um talento incomum.
A vida, minha gente, não é para qualquer um.

Lápide
Conversava-se sobre lápides e me perguntaram o que eu gostaria que fosse escrito na minha. Respondi:
Luís Fernando Veríssimo
(1936 - 2046)


Assim vai o mundo...

O mundo dos filmes...

Alguns amigos fartos de viver no limiar da pobreza decide entrar no mundo do crime! Mas já se sabe que o caminho do crime nunca é um caminho certo. "Bridges to Nowhere" é um filme razoável com uma mensagem verdadeira...



Assim vai o mundo...

quinta-feira, setembro 24, 2009

O mundo dos filmes...

Ontem vi Banlieue 13 Ultimatum! Um filme a 100 à hora... E que aborda a questão da multiculturalidade de Paris...



Assim vai o mundo...

quarta-feira, setembro 23, 2009

O mundo dos jornais....

José Manuel dos Santos sobre Jorge de Sena, no Expresso de Sábado!

Ao contrário dos ossos daquele Camões que se dirige aos seus contemporâneos no célebre poema ("Nada tereis, mas nada: nem os ossos, /que um vosso esqueleto há-de ser buscado,/ para passar por meu."), os ossos de Sena passarão por nossos, porque ele assim o quis. Num tempo em que os símbolos foram trocados por gadgets, não sei se é possível falarmos ainda da força simbólica que tem a vinda para Portugal dos despojos mortais de Jorge de Sena. Ao encontrar aqui um abrigo, esse pó quase extinto dá corpo a um regresso demasiadamente adiado. O nome de Sena num cemitério português inverte a sua ausência - não para nos aliviar de uma culpa, mas para nos culpar de a não termos tido.

A ausência de Jorge de Sena num exílio gritado, ao mesmo tempo indesejado e desejado, tornou-se o epicentro do sismo contínuo que eram a sua obra e a sua vida. E foi também esse, frontal ou obliquamente, um dos temas da cultura portuguesa da segunda metade do século XX. Sena tornou-se a estátua do Comendador que, de tempos a tempos, vinha assombrar a paz pobre da terra triste. Alguns viam nisso uma exibição, um vício de vaidade, uma histeria literária (por exemplo, Cesariny, Natália, Lacerda). Mas outros viveram essa ausência como uma maldição e uma derrota.

No tributo que, em 1976, lhe foi prestado, Sophia de Mello Breyner falou dessa ausência como de um mal: "Se penso em Jorge de Sena, penso nos seus poemas, mas penso igualmente na sua ausência. Pois essa ausência é como uma parte da nossa vida e do nosso país que nos roubaram. É uma forma de termos menos a pátria que temos e a vida, única, que tem. A 25 de Abril pensámos que éramos um país que se ia reconciliar consigo próprio e que se ia reconhecer. Acreditámos na transparência possível. Acreditámos que a lei da negatividade iria ser ultrapassada. A continuada ausência de Jorge de Sena também nos diz que algo não correu inteiramente bem." E, na última carta que lhe escreveu, lamenta-se ela: "Que pena morares tão longe e as nossas viagens não coincidirem. Mas espero ver-te quando o Verão vier."

O Verão veio e não o trouxe, pois a morte o levara nesse mês de Junho de 1978. Na mensagem que então enviou a Mécia de Sena, Sophia diz: "Para além do desgosto e da saudade sinto um profundo acabrunhamento. Do Jorge oiço o grande rio em cheio da sua poesia passando através do espaço e do tempo em que vivo. Sei que dificilmente existirá alguém que seja seu igual. E não me consolo destes dezoito anos de ausência que poderiam ter sido dezoito anos de convívio, de encontros, conversas, riso comum, aflições e alegrias comunicadas."

Esta ausência, em vida e em morte, de Jorge da Sena da terra portuguesa foi acusação e prova contra nós. Uma ausência que, antes do 25 de Abril, era exílio forçado, tornou-se depois exílio voluntário, com o qual ele desafiava altivamente um país que amava com ódio e odiava com amor: "Ó, terra de ninguém, ninguém, ninguém: /eu te pertenço. És cabra, és badalhoca, /és mais que cachorra pelo cio,/ és peste e fome e guerra e dor de coração./ Eu te pertenço mas seres minha, não!"

Sena era lúcido e megalómano, terno e cruel, astuto e ingénuo. A tal questão que, dizia O'Neill, cada português tem consigo-mesmo e que se chama Portugal, ele agigantou-a à altura lívida de um fantasma. O meu amigo Fernando Dacosta, quando o visitava na sua casa do Restelo, ouvia-o, juiz justiceiro, vociferar horas contra tudo e contra todos, possesso de furor e de vingança. Só depois se apaziguava e fazia da angústia uma música que se juntava à música da noite que chegava.

José-Augusto França conta que, um dia, ao vê-lo com uma insatisfação tão zangada, lhe disse: "Jorge, não vale a pena estares assim. A tua obra é tão grande que o reconhecimento chegará. Terás a glória! Se não for hoje, será para o mês que vem, ou para daqui a dez anos. Mas ela virá"! Sena ouviu-o e gritou-lhe: "Mas eu preciso da glória já, nos próximos quinze minutos".

Encontrei-o uma vez, em casa do Ruy Cinatti, num tempo em que tudo acontecia a toda a hora. Estava ele excitado, ansioso e perplexo com a Revolução. E muito inquieto com a perturbação do seu velho amigo por causa de Timor.

O que eu mais gosto em Jorge de Sena é a grandeza de quem quer chegar ao que não alcança. É a atitude inconformada e ardente perante a gravidade da vida: "Soube-me sempre a destino a minha vida." É a proximidade ao corpo, sabendo que o seu auge coincide com o auge do espírito. É a raiva insolente e excessiva, autenticamente moral porque ferozmente antimoralista.

Entre nós, está a partir de agora a memória fúnebre de Jorge de Sena, com a pouca glória que temos para lhe oferecer. Que ao menos essa presença nos acrescente do que nos falta e a ele não faltou: a violência que ordena à mediocridade que falhe.


Assim vai o mundo...

segunda-feira, setembro 21, 2009

O mundo dos filmes...

Vi ontem um filme que não consigo mesmo decidir se gostei ou não! Peter Jackson criou um louco filme de extraterrestres, que se mistura com documentário. É um filme diferente porque pressupõe uma espécie de convivência entre os terrestres e os extra-terrestres. Olhem, a melhor maneira é verem o filme...



Assim vai o mundo...

O mundo da TV...

Ontem foi dia de Emmys! Grandes vencedores: Mad Men, 30 Rock, Jon Stewart...



Assim vai o mundo...

domingo, setembro 20, 2009

O mundo da Tv...

Os Black Eyed Peas conseguem deixar Oprah de boca aberta! Vejam o video até ao fim...



Assim vai o mundo...

O mundo dos filmes...

Jeff Goldblum no papel de uma vida! A história de um homem que sobreviveu ao holocausto mas não aos seus fantasmas. Deixem-se contaminar por "Adam Ressurect"...



Assim vai o mundo...

sexta-feira, setembro 18, 2009

O mundo dos filmes...

Taken é um belo thriller que me deixou em suspense! Liam Neeson num excelente papel...



Assim vai o mundo...

quinta-feira, setembro 17, 2009

O mundo da música...

Há qualquer coisa nos anos 80 que é tremendo! Então na música: Tarzan boy dos Baltimora...



Assim vai o mundo...

quarta-feira, setembro 16, 2009

O mundo dos filmes...

Dois filmes de uma assentada...

- Fighting é um filme girinho sobre lutas de rua, onde sobretudo brilha Terrence Howard (e já agora a sua namorada Zulay Henao)..



- E o longíssimo filme português "Aquele Querido Mês de Agosto"! Um filme/documentário de como é o mês de Agosto numa das pequenas aldeias do nosso país, no caso Rio Alva. É uma bela narrativa descritiva...



Assim vai o mundo...

terça-feira, setembro 15, 2009

O mundo do cinema...

É com tristeza que o Mundo viu partir Patrick Swayze! Com inúmeros filmes que ficaram no nosso imaginário comum, arrancou muitos suspiros a muitas teenagers por esse mundo fora. Mais um que parte!



Assim vai o mundo...

O mundo da TV...

Começou ontem o "Daily Show" à portuguesa! E logo com José Socrates. E sinceramente acho que ganhou mais votos neste programa do que em todos os debates da semana passada...







Assim vai o mundo...

segunda-feira, setembro 14, 2009

O mundo dos filmes...

O novo filme de Tarantino é mais uma obra de arte! Acima de tudo os diálogos. Christoph Waltz é a grande surpresa! A figura dele domina o filme. Sem dúvida, uma maravilha...



Assim vai o mundo...

O mundo da TV...



Para quem se lembra do Bravo Bravissimo, não posso deixar de lamentar a morte de Mike Bongiorno...

Assim vai o mundo...

O mundo dos jornais...

Luis Fernando Veríssimo escreve crónicas geniais! Pequenas estórias sempre com uma moral. Esta é a sua crónica de sábado no Expresso...

Zum

O professor concluiu que a Sandrinha tinha sido posta no mundo para enlouquecê-lo quando ela declarou que lia na diagonal. Não bastava Sandrinha passar a aula fazendo e desfazendo o nó que mantinha seu cabelo preso atrás, agora aquela. Lia na diagonal.

- Como, na diagonal, dona Sandra?

- Na diagonal. Em vez de linha por linha. Começo na primeira palavra da primeira linha e desço, zum, até a última palavra da última linha da página. Em diagonal. Poupa tempo.

O professor sacudiu a cabeça. Como se tivesse levado um soco e tentasse clarear o cérebro.

- Como assim, poupa tempo?

- Por exemplo - disse Sandrinha, desfazendo e refazendo o coque -, "Os Irmãos Karamazov".

O professor não estava acreditando no que ouvia.

- A senhora leu "Os Irmãos Karamazov"?

- Li todo. Zum, zum, zum. Em quarenta minutos.

- Mas dona Sandra..,

- O senhor leu "Os irmãos Karamazov", professor?

- Não. Quer dizer, li. Há muito tempo.

- Então me pergunte qualquer coisa sobre o livro.

O professor não se lembrava muito bem do livro. Na verdade, só se lembrava de uma frase, dita por um dos irmãos. Se Deus não existe, tudo é permitido. A frase precisava ser revisada. Se o método de leitura da Sandrinha existia, nada mais tinha sentido. Se ler na diagonal funcionava, significava que 80 por cento - mais, 90 por cento! - do conteúdo de uma página era supérfluo. A própria literatura estava ameaçada. Para não falar, pensou o professor, na minha sanidade mental.

- E "Guerra e Paz", a senhora leu?

- Li. Em uma hora.

- Que mais?

- "Ulisses".

O professor deu uma risada.

- Está bem, dona Sandra. Vamos deixar de brincadeira. Não vá me dizer que entendeu todo o "Ulisses".

- Entendi tudo. Na diagonal, simplifica.

- Dona Sandra...

- Aposto que eu já li mais livros do que o senhor professor.

E Sandrinha desfez e refez o nó do cabelo outra vez, olhando o professor com malícia.

- O que a senhora faz não pode ser chamado de leitura, dona Sandra.

- Por que não? Leitura dinâmica. Zum, zum, zum, e pronto. Tá lido.

O resto da classe se divertia. O professor sentiu que precisava restabelecer sua autoridade.

- Isso é ridículo. Um livro tem que ser degustado, palavra por palavra. O seu método reduz qualquer livro a, sei lá. A um fast-food, a um...

- O senhor leu "Os Sertões", professor?

- Li!

- Inclusive a primeira parte? A parte chata?

O professor não tinha lido a parte chata. A Sandrinha provavelmente lera a parte chata, na diagonal, em meia hora. O professor não podia lhe conceder aquela vitória. Antes que ela dissesse "Eu li", ordenou:

- Por favor, pare de mexer nesse seu cabelo!

E encerrou o assunto.

O consenso na classe foi: mais uma vitória da Sandrinha. Que no primeiro dia de aula já tinha convencido o professor a deixá-la usar a camiseta com "Abaixo todas as calças!" escrito na frente.


Assim vai o mundo...

domingo, setembro 13, 2009

O mundo da política...

Decidi dar um pouco de seca sobre política!

Pela primeira vez tivemos em Portugal debates entre os líderes dos cinco principais partidos! E com algumas surpresas. A saber...

- Esperava-se que o frente a frente entre Jerónimo e Louçã fosse mais picado, por causa de alguns votos indecisos (mas foi muito cordial e calmo)
- Esperava-se que o duelo Paulo Portas e Ferreira Leite fosse cordato (a pensar em possiveis coligações), mas foi dos mais picados e em que Portas deu uma abada.
- Paulo Portas ganhou quase todos os debates
- Ninguém esperava que Louçã perdesse tão claramente o debate com Sócrates
- Apesar de ter perdido o debate com Portas e Sócrates, Manuela Ferreira Leita não esteve assim tão mal.
- Das três moderadoras, Clara de Sousa esteve bem, Judite safou-se e Constança esteve mal.
- Nos primeiros debates, não havia debate! Houve respostas a temas. Só com Sócrates houve mais confronto, apesar de ele não gostar disso.

E chegamos ao fim dos debates a pensar no que serão as eleições! Penso que o PS ganhará com uma pequena margem sobre o PSD e os três restantes partidos terão muito bons resultados, perto ou acima dos 10%. Teremos então um governo minoritário num parlamento muito dividido! Ou seja uma governação com pinças...

Assim vai o mundo...

sábado, setembro 12, 2009

O mundo do humor...

Por mim, isto deveria ser um hit...



Assim vai o mundo...

sexta-feira, setembro 11, 2009

O mundo privado...

Só uma pequena nota para informar que não consegui entrar em Psicologia como era meu desejo! Nunca pensei que houvesse tanta gente a concorrer como licenciado e tramei-me! Não estava à espera. Mas hei-de dar a volta com um sorriso como sempre...

Assim vai o mundo...

quinta-feira, setembro 10, 2009

O mundo dos jornais...

Magnífica a entrevista a Woody Allen na Única de Sábado! O Senhor Melancolia é provavelmente o melhor criador de citações vivo. Leiam a entrevista toda, mas só como teaser deixo esta pérola:

"Não acredito na vida depois da morte, mas irei preparado com uma muda de roupa interior."

Assim vai o mundo...

quarta-feira, setembro 09, 2009

O mundo dos filmes...

Não sei porque andam a calhar-me filmes muito marados! Neste caso, The Flock. Um filme sobre abusadores sexuais e os agentes que os vigiam. Richard Gere faz um papel à margem do seu costume, mas constrói uma personagem fantástica...



Assim vai o mundo...

O mundo do humor...

Um dos vídeos mais engraçados que recebi... Os efeitos das drogas na condução...

Assim vai o mundo...

terça-feira, setembro 08, 2009

O mundo dos filmes...

Sem net durante um tempo, mas há sempre a possibilidade de ver filmes...

Primeiro, este "The Girlfriend Experience"!Esperava mais deste filme de Steven Soderbergh. A ideia de uma escort girl com um namorada merecia mais do que alguns bons momentos...



"Tje Killing Room" é um filme assustadoramente atractivo! Uma experiência sociológica que esperamos não existir mas que tememos que exista.. O trailer de certeza que vos espicaçará...



Assim vai o mundo...

sexta-feira, setembro 04, 2009

O mundo dos filmes...

Catch a fire é um filme fantástico! Baseado na vida de Patrick Chamusso, dá-nos uma versão real do luta contra o apartheid na África do Sul. Um filme sobre liberdade, sobre luta e acinma de tudo sobre o perdão...



Assim vai o mundo...

quinta-feira, setembro 03, 2009

O mundo dos jornais...

José Manuel dos Santos traça um retrato perfeito de uma certo tipo de portugueses...

"Praia

É uma daquelas praias que têm horror ao vazio. Nelas, não existe espaço, nem sequer entre as pessoas. Os cinco sentidos são postos em comum. Todos vêem, ouvem, cheiram, provam, tacteiam tudo de todos. Todos ficam a conhecer a vida de todos. Todos jogam à bola com todos. Todos ouvem a música de todos. Ali, não há distinção entre público e privado, individual e colectivo. Mais: não há propriedade privada, pois, se o conhecessem, todos concordariam com o velho Proudhon, quando proclamou aos séculos vindouros que a propriedade é um roubo.

Ao pé daquilo, a cama da "Comunidade", de Luís Pacheco, é um espaço amplo. Não admira, por isso, que nessa praia algarvia se façam amizades, rapidamente e em força. No primeiro dia, partilha-se com os vizinhos do lado o gosto por uma música que não é nem de Bach nem de Beethoven. No dia seguinte, uma das famílias leva sardinhas e a outra febras de porco para um almoço que já se faz em conjunto. No dia seguinte ao seguinte, essas duas famílias alargam o convívio a outras famílias, que trazem mais comida, mais bebida e mais alegria.

Com a continuidade, a intensidade e a intimidade destes convívios, trocam-se moradas e números de telemóveis (há sempre pelo menos três por família), combinando-se futuras visitas às respectivas terras e casas. Há mesmo casos em que se acaba a trocar alianças entre descendentes de famílias que se conheceram junto ao mar, sob um sol escaldante.

Esta história passou-se nessa populosa praia algarvia que vos descrevi. O seu protagonista é um homem de meia-idade, oriundo das terras fartas e fortes de Portugal e com visíveis sinais dessa proveniência nos modos e nas falas. Apareceu na praia e logo se tornou o líder incontestado de uma vasta região do areal. Alguns dias depois, o seu poder de conquista alastrou, exercendo-se sobre as regiões limítrofes (que viviam sob o jugo de outros líderes com menos capacidade de liderança do que este), e o império dele quase se estendeu a toda a praia. A sua oratória mostrava-se inesgotável. Falava, sem hesitação, cansaço ou interrupção de futebol, política, gajas, macroeconomia, hidráulica, música pimba, Internet, cozinha regional, bingo, agricultura, TGV, vetos presidenciais, computador Magalhães, noites do Porto, fertilização in vitro, gang "Aperta o Papo", gripe A, automóveis, casamentos gay, apresentadoras de televisão. Era radical, obsessivo, imperioso, peremptório e definitivo nas suas opiniões. Quando alguém discordava delas, os seus punhos grossos e peludos erguiam-se à altura da cabeça e faziam mover o ar.

Chegava sempre à praia com uma geleira à tiracolo, onde havia uma profusão de cerveja, vinho rosé, amêndoa amarga, Licor Beirão e mais digestivos similares e afins. Atrás, a mulher arrastava outra geleira com mariscos, sandes, pastéis, saladas, bolos. E, num saco enorme, transportado penosamente pela filha, vinha a feijoada de chocos e o coelho à caçadora. Assim se faziam sempre grandes e arenosos piqueniques, havendo disputa nas famílias circundantes para serem convidadas (perdoem-me o eufemismo) a associar-se à festa.

Além de falar muito com a praia inteira ("Somos uma grande família!", dizia), o homem fazia e recebia constantes chamadas nos seus três telemóveis (um de cada operador). Decerto esquecido de que estava a usar um aparelho descendente do de Bell, falava ao telemóvel aos gritos, como se a sua voz fosse transmitida do sul até ao norte não por ondas electromagnéticas mas pelo ar. Por isso, toda a praia ouvia essa voz forte a fazer relatos pormenorizados da estada em terras algarvias, com comentários de largo espectro, que iam do físico ao psicológico e mesmo ao metafísico. Afinal, e embora não parecesse, o homem tinha sentimentos: mandava 'abrações' aos amigos, misturando-os com palavrões do mais altissonante impacto e acrescentando considerações filosóficas sobre o aquém e o além.

Durante os 15 dias de férias, que passaram céleres, o ânimo daquele veraneante manteve-se inalteravelmente acima da euforia. Mas, no último dia, tornou-se melancólico. O homem falou menos do que era usual. Dava grandes palmadas nas costas dos que se despediam dele, e as lágrimas quase se lhe acendiam nos olhos. Ao almoço, repetiu a comida menos vezes do era seu hábito (e fez mal, que a jardineira estava uma delícia!). Depois, dormiu a sesta sob um guarda-sol de uma marca de gelados e ainda ressonou mais do que costumava. Passadas três horas, acordou e parecia pensativo. De repente, um dos telemóveis tocou, e ele atendeu. Enquanto falava, pôs o pé em cima da geleira com uma nobreza de atitude em nada inferior à das estátuas clássicas. A sua voz começou por soar baixa, mas depois foi aumentando de volume. Quem andava por perto pôde então ouvi-lo exclamar para o seu interlocutor longínquo: "A vida de rico está-se a acabar! A vida de rico está-se a acabar!"


Assim vai o mundo...

quarta-feira, setembro 02, 2009

O mundo do humor....

Este é um espectáculo que adorava ver ao vivo! Chama-se Nois na Fita e é protagonizado por Leandro Hassum e Marcius Melhem! Deixo-vos aqui os vários vídeos, sendo que recomento a sétima parte...

















Assim ri o Mundo...

terça-feira, setembro 01, 2009

O mundo da TV...

De rir, esta entrevista de Jon Stewart a Rachel McAdams! Ela praticamente conta o filme todo. As minhas desculpas para quem o inglês não é perfeito...

The Daily Show With Jon StewartMon - Thurs 11p / 10c
Rachel McAdams
www.thedailyshow.com
Daily Show
Full Episodes
Political HumorHealthcare Protests


Assim vai o mundo...

O mundo dos filmes...

The Strangers é um filme inquietante! Desde o princípio do filme sabemos o seu fim, mas ainda assim conseguimos assustar o tempo todo. Liv Tyler num registo novo. Bom filme para ver acompanhado...



Assim vai o mundo...

O mundo das revistas...

A Tabu de sábado tem artigos interessantes!

- Primeiro a Raquel Carrilho fala-nos daquela que é considerada a jornalista desportiva mais sexy do mundo: Sara Carbonero!



- Depois um artigo sobre o supercool Usain Bolt! A sua tranquilidade nas provas é impressionante...

- Uma bela reportagem de Catarina Homem Marques sobre as dietas, tratamentos e afins. Uma prova de 60 dias feita pela própria jornalista...

- Finalmente a entrevista magnífica a um nome maior (talvez o maior) do teatro nacional: Ruy de Carvalho! E que justo é o seu regresso aos nossos palcos...

Assim vai o mundo...

segunda-feira, agosto 31, 2009

O mundo dos filmes...

Ora um filme que me surpreendeu! Não é fácil, há alguma violência complicada de ver, mas tem uma mensagem forte e pungente. Dennis Quaid faz um papel tremendo...



Assim vai o mundo...

sábado, agosto 29, 2009

O mundo das eleições...

Leio no Expresso que os Gato Fedorento vão ter um novo programa já a partir de dia 14! Um género de talk show com vários convidados relevantes. Jerónimo de Sousa, Paulo Portas e Francisco Louçã já aceitaram o convite. Estou muito curioso!!

Assim vai o mundo...

sexta-feira, agosto 28, 2009

O mundo do humor...

Lindo! Uma avó açoriana.. Não há nada melhor!! Vejam a noticia do Expresso...

""Ah Vóóóóó!". Esta é talvez a expressão mais ouvida nos vídeos daquela que é já a avó portuguesa mais famosa do YouTube . O autor da saga de mais de doze vídeos, intitulada "Portuguese Grandmother" , é Jeff, o neto de 19 anos que sempre que pode arrelia a avó Angelina enquanto a filma para depois difundir na Web.

O sotaque açoriano está sempre presente, uma vez que a família é oriunda dos Açores e está a viver no Canadá. Entre "sopinhas", "papos-secos" e muitos ralhetes de chinelo na mão, cada vídeo da avó portuguesa chega a render mais de 80 mil visitas e 200 comentários. Contudo, a senhora Angelina "não gosta das fotografias" que o neto lhe tira e chega mesmo a ameaçar partir-lhe a câmara.

O sucesso galgou as fronteiras do YouTube e a "portuguese grandmother" é já falada nos mais diversos fóruns e redes sociais. Só no Facebook , tem mais de mil fãs, que deixam inúmeras mensagens a pedir mais vídeos e a dizer o quanto se divertem com a espontaneidade da avó. Espontaneidade essa que se deve, seguramente, ao facto da senhora não ter a mais pequena noção acerca do sítio vão parar as imagens filmadas pelo neto..."







Assim vai o mundo...

quarta-feira, agosto 26, 2009

O mundo dos filmes...

Eu já tinha gostado da versão recente com Jude Law, mas o Alfie original é fantástico! Michael Caine fabuloso...





Assim vai o mundo...

O mundo da música...

Kevin Eubanks é conhecido pela sua participação nos programas de Jay Leno! Mas é acima de tudo um excelente músico. Aqui estão as provas...





Assim vai o mundo...

terça-feira, agosto 25, 2009

O mundo da TV...

Vi hoje o último episódio da primeira série de Mental! Fabuloso.. Fantástico...



Assim vai o mundo...

segunda-feira, agosto 24, 2009

O mundo do cinema...

Adoro Tarantino! E fiquei fascinado com esta curta sobre a sua obra. Realizada por brasileiros, conta com Selton Mello e Seu Jorge, que discutem sobre as coincidencias dos filmes tarantianos... A ver, sem dúvida...



Assim vai o mundo...

domingo, agosto 23, 2009

O mundo dos filmes...

Estando em casa, tempo de ver filmes! Hoje mais dois...

Streets of Blood é o primeiro filme a abordar New Orleans depois do Katrina! Uma estória sobre a corrupção na polícia. Val Kilmer faz um grande papel e Curtis "50 cent" Jackson mostra-se como um belíssimo actor. Sem dúvida um bom filme...



Thick as Thieves é um filme de ladrões que ganha por ter o inimitável Antonio Banderas e o sempre fabuloso Morgan Freeman...



Assim vai o mundo...

sábado, agosto 22, 2009

O mundo português...

Depois de Raúl Solnado, desapareceu hoje Morais e Castro! É uma geração que faz muita falta...



Assim vai o mundo...

O mundo dos filmes...

Notável o filme "A Promessa"! Realizado por Sean Penn, protagonizado por Jack Nicholson, com um óptimo argumento, uma banda sonora deliciosa, e uma pequena aparição fantástica de Benicio del Toro! Perturbante...



Assim vai o mundo...

O mundo internautico...

Acho que agora domino um pouco melhor o Twitter...

http://twitter.com/chicodelmundo

Assim vai o mundo...

sexta-feira, agosto 21, 2009

O mundo dos filmes...

Um filme que não deixa saudades! Hush pegou numa boa ideia mas perdeu-se pelo caminho. Pena...



Assim vai o mundo...

O mundo do desporto...

Impressionante! Depois dos 100m, agora os 200m! Ontem vibrei como se fosse um jogo de futebol com este homem... Usain Bolt tira novamente 11 centésimos ao recorde mundial...



Assim vai o mundo...

quinta-feira, agosto 20, 2009

O mundo dos filmes...

Não é um filme fácil, mas acaba por ser um filme interessante ao acompanhar o início dos anos 80 com o aparecimento da SIDA e a decadência de certas bandas dessa altura! Os Informers...



Assim vai o mundo...

quarta-feira, agosto 19, 2009

O mundo dos filmes...

A Ressaca é um filme de rir e chorar por mais! Do princípio ao fim...



Assim vai o mundo...

O mundo português...

Não são demais as reportagens e homenagens a Raúl Solnado! Desde a Tabu à Actual, passando por esta belíssima crónica de José Manuel dos Santos...

A sua morte faz-me falar da sua vida e da sua arte. No primeiro "Zip Zip", ele entrevistou Almada Negreiros, e esse foi um dos momentos míticos da televisão. O autor da "Cena do Ódio" e do "Manifesto Anti-Dantas" era um homem com um sentido instintivo do espectáculo e sabia fazer a grande afirmação e a grande negação que provocam, espantam, escandalizam. Fazia-o como quem proclama verdades eternas e mentiras lapidares. Naquele lugar e naquele tempo, isso acendia um fogo alastrador, e os aplausos de uma plateia em êxtase acabavam cada frase que ele atirava. Lembro-me da cara maravilhada dos entrevistadores, Raul Solnado e Carlos Cruz, a conversar com um velho senhor vestido de escuro, que falava de si e do mundo, enquanto Fialho Gouveia mostrava quadros seus, que tinham sido levados ao Teatro Villaret. Aqueles entrevistadores estavam perante Almada como se está em frente de um fenómeno, de um monumento, de um caso, de um prodígio.

Almada Negreiros tinha afirmado, num dia feliz, que "a alegria é a coisa mais séria da vida". Solnado concordava com essa afirmação. O seu humor era feito de inteligência, ousadia e responsabilidade. Quando contava uma história, uma anedota, uma piada, havia uma emoção que dava gravidade à graça. Pode afirmar-se que ele foi um cómico do humanismo e que Herman José é um cómico do pós-humanismo. A passagem de Solnado a Herman foi a de um tempo a outro, como antes tinha sucedido com a de António Silva a Solnado. Sem Solnado não teria havido Herman. Ele sabia-o e fez desse saber uma teoria do humor português. Sempre que falava da sua arte, aquele que pôs o país a rir com a "História da Minha Vida" dizia palavras certeiras, aquelas que o mostravam consciente e perspicaz.

Raul Solnado era uma máquina de fazer rir. Mas não se ficava nesse limite. Foi mais exigente consigo e com o público. Conhecia bem o papel que representava num país triste e num tempo fechado. Quando esse tempo abriu, o seu humor acompanhou-o, tornando-se mais claro. Ele nunca usou a sua popularidade para perder a sua independência e nunca a quis para ameaçar a sua liberdade. Essa astúcia tornava-o quase invulnerável. Na rua, Solnado era o rei dela. Quem com ele se cruzava servia-lhe de eco e de espelho. Dizia as suas tiradas com uma voz que imitava a dele, fazia as suas caretas numa cara que parecia a sua. Aristocrata de um humor que ascendia do povo, a ética de Solnado foi sempre a de não deixar desvirtuar ou contrafazer a sua origem. Nunca quis ser facilmente popular, por isso o foi tanto e de forma tão duradoura. E foi-o porque reflectia sem conceder.

O humorista de "A Guerra de 1908" gostava da vida e do que a torna melhor do que é. Interessava-se por tudo e mesmo pelo nada que há no tudo. Tinha um espírito curioso e sagaz. Ganhou uma cultura que não exibia, mas que usava com acerto e imaginação. Conversar com ele era fazer uma viagem por lugares de reconhecimento e de revelação. Estava quase sempre em "estado de graça". Era vivo, irrequieto e descobridor. Gostava daquilo que nos torna melhores do que somos. Dos grandes e dos pequenos prazeres, por exemplo. Gostava de amar, de conversar, de comer. Conhecia os restaurantes, mas também as tascas e tasquinhas, onde isso pode acontecer bem, sem risco nem ruína. Estar com ele à mesa era fazer do jantar um festim.

Nos últimos anos, encontrei-o muitas vezes amargurado - por ele, pelo país (costumava dizer: "Um gajo para fazer qualquer coisa em Portugal tem de ser muito competente") e pelo mundo. Havia nele uma justa rebelião contra os que vivem de impedir os outros de viver. E contra aqueles que ignoram que o hoje não pode existir sem o ontem e que o ontem é muitas vezes o novo amanhã. Mas o seu interesse pela política, quando achava que valia a pena, era intenso e activo. Isso sucedeu há dois anos, e agora outra vez, ao aceitar ser, com energia e entusiasmo, mandatário sénior de António Costa. Amava muito Lisboa e entristecia-se por ela. Olhava-a com ambição (dizia: "Lisboa é uma cidade do caraças!"). Essa exigência não pode desfazer-se com a sua morte - deve aumentar!

Quando, não há muito, escrevi sobre ele, o Raul telefonou-me e ouvi-lhe palavras de uma graça grata. Prometemos encontrar-nos mais pontualmente. Nos últimos tempos, Solnado dizia a quem o encontrava: "Estou tão em baixo!", acentuando com um gesto a fragilidade do seu corpo. Não morreu de riso! No fim, trocou o riso pela tristeza de estar doente. Mas continuava a achar que a alegria é a coisa mais séria da vida.


Assim vai o Mundo...

terça-feira, agosto 18, 2009

O Mundo Humanitário...



Arrancou esta semana em Portugal um projecto pioneiro de solidariedade.
A água embalada Earth Water é o único produto no mundo com o selo do
Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), revertendo
os seus lucros a favor do programa de ajuda de água daquela instituição.
A nível nacional, a Earth Water é um projecto que conta com a colaboração
da Tetra Pak, do Continente, da Central Cervejas e Bebidas, da MSTF
Partners, do Grupo GCI e da Fundação Luís Figo.
Com o preço de venda ao público (PVP) de 59 cêntimos, a embalagem de Earth
Water diz no rótulo que «oferece 100% dos seus lucros mundiais ao programa
de ajuda de água da ACNUR», apresentando, mais abaixo, o slogan «A água que
vale água».
Actualmente morrem 6 mil pessoas no mundo por dia por falta de água
potável.Com 4 cêntimos, o ACNUR consegue fornecer água a um refugiado por um dia.

http://earth-water.org/

Assim vai o mundo...

segunda-feira, agosto 17, 2009

O mundo do desporto...

Absolutamente incrível...



Assim vai o mundo...

O mundo da música...

Peguem numa bela mulher da Guiné Equatorial, façam-na crescer no meio do flamenco e tem o que? Concha Buika, pois claro...



Assim vai o mundo...

sábado, agosto 15, 2009

quinta-feira, agosto 13, 2009

O mundo dos jornais...

José Manuel dos Santos, Sábado no Expresso...

"Férias

Levanta-se da cama e não sabe para onde dirigir o olhar. Nos dias em que o sol está mais limpo e mais quente, tem saudades do tempo em que costumava passar férias perto do mar. Não foi há muito, mas é como se fosse há muito. Agora, lembra a casa, a varanda vasta, as divisões com esteiras e móveis claros. Ouve a voz do dono, com quem acabava sempre por fazer um bom negócio: arrendava a casa, durante 15 dias, por um valor que, não sendo baixo, era suportável. Ambos ficavam contentes.

Agora, recorda a viagem, a alegria da chegada (já era noite), o desfazer das malas. Muito cansado, deitava-se. Dormia de um sono único, que acabava com o frio fino da madrugada a cair-lhe no corpo. Puxava o lençol para cima e voltava a dormir. Passadas duas horas, despertava, desta vez já sob o calor do sol nascido. Erguia-se e olhava o mar da janela. Parecia que tinha acordado num mundo novo.

Durante o ano, poupava dinheiro para as férias: aqueles 15 dias valiam-lhe os outros 350. Vê-se a descer a longa escada para a praia. Regressa ao mar e aos repetidos banhos de então. Parece que tem nas mãos os livros que levava para ler. História e biografias: gosta muito de Stefan Zweig (Maria Stuart, Erasmo de Roterdão, Fernão de Magalhães, Fouché, Maria Antonieta). E policiais: Conan Doyle, Agatha Christie, Simenon, Dashiell Hammett, Patricia Highsmith. Adora aquela mistura de crimes reais com crimes imaginários...

À hora do almoço, caminhava para o restaurante e comia peixe grelhado, fresquíssimo. Ele é doido por sardinhas e aproveitava - comia dúzias! Depois, ia a casa dormir a sesta. Ao fim da tarde, regressava à praia, que nessa altura é outra: mais serena, mais leve, mais livre. E os banhos de mar são mais lentos, demoram mais, descansam mais. Às vezes, à saída da água, sentia frio, e era preciso correr para se secar com a toalha.

Lembra tudo isso e recorda o amor dessas noites, o seu som secreto. Vive tudo, de novo: o corpo cobre-se de uma memória de prazer, os olhos acendem-se com o sol desses dias, os ouvidos escutam o barulho do mar enorme, as mãos sentem a areia que sacudiram. Tudo isso está nele, mas não está nele a alegria de tudo isso. Tudo isso é-lhe um paraíso perdido.

Há três anos, a vida começou a correr-lhe mal. No ano passado, piorou. A palavra 'crise' passou a ser-lhe tão próxima como o seu nome. Já não pôde arrendar a casa perto do mar. Nem qualquer outra. Este ano, passa as férias em Lisboa. Não sabe bem o que fazer nestes dias vazios. Às vezes, entra no carro e vai a uma praia da Linha. Outras, à Costa da Caparica. Mas vem de lá mais cansado do que foi. Por isso, promete não voltar. E, se volta, arrepende-se.

Há tardes em que sai de casa e passeia pela cidade. Para disfarçar a mágoa de não ir, para diminuir a humilhação de ficar, diz: "Afinal, Lisboa é fantástica em Agosto!" Olha a cidade como nunca a olhou. Vai ao Rossio, senta-se num banco, engraxa os sapatos. Vê o bazar de cores e de gestos, ouve falar português com muitas variações. Depois, desce a Rua Augusta, passa para a do Ouro, continua na da Prata e espreita os saldos. Faz contas, resiste à tentação. Um dia, cede e compra uma camisa barata, mas, mesmo assim, arrepende-se! Passa duas, três, quatro horas nisto.

Ao fim da tarde, volta ao Rossio, senta-se na esplanada de um café e olha à volta para se distrair - de si, das preocupações, do cansaço, da ansiedade.

Tem agora muito menos dinheiro do que já teve. Ao princípio, isso atacava-o como uma doença. Sentia-se mal, porque, para ele, o dinheiro servia sobretudo para comprar conforto e comodidade. Isso é o que mais aprecia, o que lhe faz mais falta. Agora, tenta habituar-se à escassez, à incerteza, à aflição. Pensa nos outros que as têm ainda maiores. Olha os pedintes, os cauteleiros, os vagabundos. Olha aqueles que vendem coisas aos turistas. E aqueles que passam encolhidos, envergonhados, tímidos. Sente-se irmão deles. Pensa no passado - ainda tão próximo e já tão distante. Não sabe se pode ter esperança. Olha os cartazes da política e divide-se entre a indiferença e a vontade de fazer uma revolução.

Tem saudades do mar à porta. De olhar, da janela, o vaivém das ondas e de se deixar ir nele. Era um privilégio que custará a repetir-se. Agora, anda pela cidade, como se andasse sobre um mar de pedra, baixo, duro, triste. O tempo pesa-lhe. Ao contrário daqueles 15 dias de praia, que passavam tão depressa, estes nunca mais passam. O sol da cidade é sujo e hostil. Ele tem saudades de sentir um sol limpo no corpo. Levanta-se da esplanada e anda com dificuldade, como se coxeasse. Vai para a paragem, espera, apanha um autocarro. Da janela, vê as pessoas que, como ele, ficaram na cidade, a andar, a vaguear. E parece-lhe que o mundo se tornou um outro mundo, aquele de onde até os fantasmas fogem."


Assim vai o mundo...

quarta-feira, agosto 12, 2009

O Mundo no Sudoeste...

O Sudoeste! Primeira vez! Muito bom! Brutal mesmo! Dizem-me que esteve menos gente que o costume, mas eu acho que estiveram as pessoas suficientes para haver um convivio fantástico.



Eu e dois amigos na maior tenda do acampamento. Um T3 com uma área abusiva! Toda a gente que passava comentava que parecia uma casa, um palácio, a mansão do Cristiano Ronaldo e até uma cidade! Em termos de dormir e comer estivemos muito bem instalados.



O espírito do festival é de amena cavaqueira. Toda a gente pega uns com os outros. Tirando alguns stresses desnecessários, é tudo muito zen, muito tranquilo! Como este talento perdido no meio do acampamento...



Nós chegamos no domingo, bem antes dos concertos e pudemos apreciar o lado mais social! Muito convívio, muita praia, muita loucura. Aproveito para vos mostrar como será o novo equipamento do FCP com o seu novo reforço...



Depois os concertos! Vamos por dias...

- Na Quarta-feira, David Guetta deu as boas-vindas aos festivaleiros com um grande set...

- Na Quinta-Feira, Buraka deu um concerto electrizante! Mais de 30000 pessoas vibraram ao som deles. Querem um exemplo?




No Palco Positive Vibes (mais do reggae) Anthony B deu um belo concerto. Aliás, vão reparar que falarei muito deste palco...

- Na Sexta, o dia que muitas pessoas tinham dúvidas. Pois bem, foi uma grandiosa noite. Carlinhos Brown deu um grande concerto e teve o azar de tocar muito cedo. Mas ele não sabe cantar mal.




A seguir o concerto poderoso de MadCon... Aqui com o tema mais conhecido...



A seguir, para mim, o concerto do Sudoeste! Muitas pessoas punham em dúvida Mariza. "Ouvir Fado no Sudoeste???" ou "Ela não vai conseguir puxar pelo público!" Pois bem, vejam e ouçam o crescendo da adesão do público até a apoteose brutal da versão de Skunk Anasie...











Deolinda entraram muito bem no espírito e deram um concerto muito alegre...



Shaggy foi fantástico no seu reggae contagiante...





E para terminar este dia a grande desilusão do Sudoeste para mim! Não escondo que Zero 7 era uma das bandas que mais queria ver. E fiquei de rastos! Aliás abandonei o concerto a meio. Muito pouco entusiasmantes e com poucos temas emblemáticos. Fica aqui um dos melhores momentos...



- No sábado, o dia Rock! Blind Zero muito seguros e é claro o muito saudado regresso dos Faith No More... Mike Patton é louco de pedra...





No palco reggae, os Mad Caddies e o filho de Bob Marley, Kymani Marley deram show...



- No último dia, Marcelo D2 num concerto muito bom...



Basement Jaxx foram aquilo que são sempre... Fabulosos e com mais de 40 temas num concerto incrível...



E o fim do Festival para mim com os legendários embaixadores do Reggae, os Third World! (a qualidade de imagens do concerto deles não era boa, por isso deixo só os temas)





E para o fecho a loucura dos Pow Pow Movement...



Foram dias memoráveis cheio de episódios que davam grandes estórias. Mas fiz um pacto com os amigos que "What happens in Sudoeste, stays in Sudoeste"!

Assim foi o Mundo...

segunda-feira, agosto 10, 2009

O mundo português...

Cheguei do Sudoeste, mas hoje o dia é dedicado a este senhor enorme de Portugal! Saber que ele partiu foi uma notícia tristíssima... Ele tinha o sorriso malandro mais doce do nosso país...



Assim perdeu o mundo...

sábado, agosto 01, 2009

O mundo privado...

Inicio hoje a viagem para sul que me levará ao festival do Sudoeste! Até daqui a 10 dias... Voltarei...

Assim vai o mundo...

quinta-feira, julho 30, 2009

O mundo dos jornais...

A crónica de José Manuel do Santos no Expresso de Sábado! Magnífico. Infelizmente o texto narra a sua experiência com o luto. Para ele continua a ir toda a minha simpatia...

"Luto

Agora, há um antes e um depois daquele dia. Mas, quando menos espera ou prevê, o tempo deixa de ser linear e torna-se circular. De repente, tudo regressa àquele momento, àquele corpo, àquele rosto parado. Talvez por isso, poucos dias após aquele dia, ele foi reler uma passagem de "Em Busca do Tempo Perdido": aquela em que, contando a morte da avó, Marcel narra verdadeiramente a morte da mãe de Proust. Diz como o seu rosto rejuvenesceu na hora em que a vida se ausentou dele. Dessas palavras tão frias como a morte que descrevem, ele fixa uma frase, a partir da qual começa a mudar a rota da sua dor: "A vida, ao retirar-se, acabava de levar as desilusões da vida. Parecia haver um sorriso poisado nos lábios da minha avó. Naquele leito fúnebre, a morte, como o escultor da Idade Média, deitara-a com a aparência de uma menina." Depois de assim ter lido, regressa ao momento em que chegou ao hospital e lhe deram a notícia. E volta a ver a mãe inclinada para o lado direito (parecia que dormia) e o seu rosto apagado pela morte. Mas não estava mais jovem do que fora, porque antes não envelhecera muito. Nem as rugas lhe desapareceram, porque nunca as tivera. Talvez por isso, ele pensara sempre que a mãe era eterna.

Agora, todos os dias olha as fotografias. Tenta adivinhar as situações em que foram tiradas, procura despertar o instante ali fixado. Vê-a, ainda muito jovem, ao lado das amigas, numa praia, com os fatos-de-banho daquele tempo coberto. Noutra, está a passear, numa tarde em que a luz não consegue fugir dos olhos dela e do namorado. A seguir, demora-se a olhar as imagens do casamento - sabe que aquelas luvas brancas estão guardadas há 55 anos numa gaveta. E ouve a voz do pai a chamar: "Luísa!" Nesta fotografia, mal se reconhece: é um bebé de poucos meses, a olhar para ela, e ela a olhar para ele - e os tempos da vida estão ali todos contidos. Há uma em que está de mão dada com a irmã, entre os pais. Outras, não consegue afastá-las do olhar, assim quisesse agarrar o que lhe foge. E ouve a voz da mãe a dizer: "Fico sempre mal nas fotografias. Não gosto nada de me ver!" Finalmente, vê a sua última imagem, sentada no sofá onde costumava estar. Depois de a ver, dirige-se, sem pensar nisso, ao sofá e senta-se no braço, como quando lhe fazia festas. Agora, em vez dela, há ali a partida, o vazio, a ausência - e nos seus olhos surge um brilho triste e húmido.

Este luto tão terrível atirou-o contra si mesmo. Para ganhar alguma distância, pensa-se como se fosse outro ("Je est un autre"), um terceiro - 'ele' em vez de 'eu'. Relê, agora com proximidade, "Luto e Melancolia", o grande texto de Freud que um dia tinha lido com afastamento. Relê-o e parece que está à beira de um buraco. Depois, repara que, no monte de livros que tem para ler, está o "Journal de Deuil". Esse Diário permaneceu inédito durante anos e apenas foi publicado recentemente. Roland Barthes começou a escrevê-lo no dia seguinte ao da morte da mãe e foi arrastado por ela durante anos. Há poucos livros tão claustrofóbicos como este, tão insuportáveis, tão funestos. Somos cercados por um amor fechado, por uma dor que não desiste, que não tem intervalo, que não se solta. Ali há um veneno agudo, um desgosto que morde como um cão cruel.

Ele cola a sua dor à dor de Barthes e atravessa pela mão dele os longos dias do luto. Lê o Diário: primeiro, rapidamente; depois, lentamente, confirmando o que sentiu e pressentindo o que sentirá. Lê o Diário, assim como aquele a quem foi diagnosticada uma doença grave passa a ler tudo o que sobre essa doença consegue encontrar. Lê o Diário e fica suspenso daquela inteligência que quer analisar os signos da sua dor e os sintomas dos seus sentimentos. É subjugado por aquela vontade que insiste e prossegue mas que, às vezes, se desorienta, tal a borboleta que voa para a luz e fica cega, desnorteada, desmedida. Lê no Diário: "Sei agora que o meu luto será caótico." Prossegue: "Dia horrível. Cada vez mais infeliz. Choro." Continua: "A emoção passa, a tristeza fica." Lê mais: "Não dizer Luto. É psicanalítico de mais. Eu não estou de luto. Estou triste." Mas nos dias seguintes volta a falar de luto: "Luto: mal-estar, situação sem chantagem possível". Acorda a meio da noite para ler: "Eu não tenho desejo, mas necessidade de solidão." Lê mais: "Solidão - não ter ninguém em casa a quem poder dizer: Eu volto a tal hora..." Agora, fecha o livro, olha o vazio e regressa de novo, obsessivamente, àquele momento, àquele corpo, àquele rosto parado. Adormece. Pela primeira vez, depois da morte dela, sonha com a mãe."


Assim vai o mundo...

quarta-feira, julho 29, 2009

O mundo dos jornais...

Quartas é dia de crónica de Luis Fernando Veríssimo no Expresso...

"Reféns da escrita

No seu livro "Lessons of the Masters", George Steiner lembra que nem Sócrates nem Jesus Cristo, que ele chama de as duas figuras 'pivotais' da nossa civilização (de pivôs, como no basquete ou nos crimes passionais), deixou qualquer coisa escrita. São mestres cujas lições sobreviveram no relato de outros: Platão no caso de Sócrates e os evangelistas no caso de Jesus. Não existe nem evidência de que os dois soubessem escrever. A única, enigmática referência da Bíblia a um Cristo escritor está em João 8: 1-8, quando, indagado pelos fariseus sobre o destino da mulher flagrada em adultério, Jesus finge que não ouve e escreve algo no chão com o dedo - ninguém sabe o quê ou em que língua. Existe até uma velha piada, que Steiner cita, sobre um académico moderno comentando o currículo de Jesus: "Óptimo professor, mas não publicou."

O legado literário de Sócrates, via Platão, é em forma de mitos, o de Jesus em forma de parábolas. Dois meios de organização e transmissão oral de memória que a escrita diminui, transformando narrativa aberta em cânone e lição em dogma. Nos diálogos de Platão, o pensamento vivo de Sócrates já se coagulou em filosofia; nos textos bíblicos, a verdade poética de Cristo se petrificou em verdades sagradas, irrecorríveis. Mas o maior defeito da escrita seria o de ter sabotado a memória como guia, roubando a sua função civilizatória de 'mãe das musas'.

Durante muito tempo, os gregos desconfiaram da palavra escrita como a linguagem cifrada de um mundo obscuro que só levava à danação, diferente do que se aprende 'de cor', ou com a linguagem do coração. Homero, o inventor da literatura ocidental, era maior porque também nunca escrevera nada e suas estrofes inaugurais tinham sido transmitidas oralmente, de coração em coração. Mas isto pode ser outro mito. 'Omeros' em grego, descobri agora, quer dizer refém. Homero, como o primeiro escritor do nosso mundo, seria o primeiro prisioneiro da maldita palavra grafada.

Meu convívio forçado com o computador, sua conveniência, seus mistérios e seus perigos me faz pensar muito sobre a precariedade da palavra. Pois um pré-electrónico como eu está sempre na iminência de ver textos inteiros desaparecerem sem deixar vestígio na tela. O computador nos transforma todos em reféns sem fuga possível da palavra e pode acabar, num segundo, com um dia inteiro de trabalho da pobre musa dos cronistas em trânsito. Que, como se sabe, se chama Ritinha, é manicura e faz trabalho de musa como bico. Ao mesmo tempo, nos transformou na primeira geração na História que tem toda a memória do mundo ao alcance dos seus dedos.

O computador resgata a memória como mestre da História ou, ao contrário, nos exime de ter memória própria e decreta o domínio definitivo da escrita sobre quem a pratica? Sei lá. É melhor acabar aqui antes que este texto desapareça.

Inigualável
Da série "Poesia Numa Hora Dessas?!"

Ah, como fazes bem
a este coração que é pouco
e a esta dor que é sina.
Nada se iguala a ti,
diva dos meus sonhos,
alento da minha vida.
Salvo, talvez, a aspirina."


Assim vai o mundo...

O mundo do humor...

O puto está com uma oura...



Assim vai o mundo...

terça-feira, julho 28, 2009

O mundo dos filmes...

Al Pacino não sabe representar mal! Rene Russo também é sempre muito segura. Matthew McConaughey surpreende com uma bela interpretação. Baseado em factos reais "2 for the Money" é um bom filme...



Assim vai o mundo...

segunda-feira, julho 27, 2009

O mundo da música...

Mesmo não olhando à fantástica história de vida de Melody Gardot (teve um terrível acidente que quase a paralisou), a voz dela é maravilhosa! Apreciem...





Assim vai o mundo...

sábado, julho 25, 2009

O mundo do jornalismo...

Então é assim, nada me move contra o Benfica! Sou do FCP, e desde que não me pisem os calos, respeito todos os outros clubes. Desde há uns tempos que se notou que a televisão generalista do Benfica tinha deixado de ser a TVI para ser a SIC. Ainda mais agora que se falou numa possivel candidatura de José Eduardo Moniz (continuo a afirmar como portista que estava mais preocupado se ele ganhasse do que Vieira) e os jornalistas da TVI foram impedidos de entrar na conferencia de imprensa de Ramires. Ora num canal generalista, eu tenho de apelidar isto de mau jornalismo. Mas ainda há pior. Na apresentação do Benfica, transmitida pela SIC, tivemos um episódio lamentável e de tão mau gosto que até custa. Jorge Baptista (de quem não gosto há vários anos desde que disse que Vitor Baia nunca foi um bom guarda-redes mas sim um produto de marketing) mostra não conhecer um jogador muito conhecido e acima de tudo, extra futebol, faz comentários inacreditáveis sobre João Malheiro (até digo que não gosto nada dele) e sobre algumas adeptas do Benfica que quiseram abrilhantar a festa. É inenarrável.. Tenho muita pena que esse senhor se intitule jornalista e que ainda possa dizer tamanhas bacoradas! Mas façam o favor de ouvir...



Assim vai o mundo...

sexta-feira, julho 24, 2009

O mundo das séries...

As séries que ando a seguir...



Um assassino que trabalha para a polícia... Os dilemas morais de quem tem de matar, mas só mata quem comete crimes... Fantástica...



Eureka é um lugar louco cheio de cientistas... O único que não é um crânio é o novo delegado de polícia... Seguimos as estórias dele...



Um Psiquiatra com tantos problemas como os seus pacientes.. Hank Azaria num grande papel...



Um Psiquiatra que usa as tácticas mais sui generis para curar os seus pacientes... A solução está sempre dentro de nós mesmos...

Assim vai o mundo...

quinta-feira, julho 23, 2009

O mundo dos filmes...

Nunca tinha visto este Sideways! Um filme calminho com um belo argumento e momentos de humor. Um filme onde Paul Giamatti mostra o belissimo actor que é...



Assim vai o mundo...